João Maria continua exemplo de cidadania para a região

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O S’PASSO BAIRRO A BAIRRO desta semana abrange a região do Irmãos Auler, Várzea da Olaria e Leonane. Nestas localidades a principal reclamação feita pelos moradores hoje é relativa à manutenção da infraestrutura, especialmente em relação ao asfalto, com várias ruas tomadas por buracos, como já foi retratado inúmeras vezes aqui. Apesar das dificuldades enfrentadas atualmente, as comunidades têm tradição na cidade e são exemplos na promoção de ações organizadas.

O Irmãos Auler, Várzea da Olaria e o Leonane possuem um significativo histórico de participação social e política no município. Pensando nisso, ao invés de expor problemas, a população sugeriu que a reportagem abordasse a história de pessoas que fizeram diferença e contribuíram com o desenvolvimento. Questionados sobre personalidades com essas características, entrevistados citaram João Maria da Silva.

Os relatos são de que ele foi peça fundamental para o progresso do Irmãos Auler enquanto bairro e sempre trabalhou pelo bem-estar de toda a comunidade, ajudando a todos aqueles que precisavam de donativos, de apoio para construírem casas ou apenas de um pouco de reconforto. João Maria era carismático e conquistava a todos com generosidade e amizade fiel.

De acordo com o vereador Antônio de Miranda, mais conhecido como “Toinzinho”, que é filho da principal liderança comunitária do Irmão Auler, João Maria da Silva nasceu em Crucilândia, na zona rural, em um vilarejo muito simples, chamado Burá. O sonho dele era ser padre, contudo, devido às circunstâncias, não conseguiu concretizá-lo.

“Ele ficou órfão de pai e mãe aos sete anos e sempre teve esse desejo de ingressar no seminário. Foi um homem sempre temente a Deus. Mas, na roça, com dificuldade de estudar, cursou só o terceiro ano do grupo, sabia ler e escrever. Tinha muita sabedoria, muito discernimento”, conta.

Casado com Nevita de Miranda Silva teve seis filhos, ainda em Crucilândia: Antônio, Deusdete, Geralda, Geraldo, Lourdes e Maria. Para garantir o sustento da família, trabalhava como lavrador. Na terra natal, é lembrado por ter feito parte de um movimento que levou à construção da capela do vilarejo onde viveu.

Em Itaúna

João Maria veio para Itaúna com a família em 1972, aos 37 anos, buscando uma condição de vida melhor e oferecer mais oportunidades aos filhos. “Infelizmente, nenhum teve condições de formar. Quatro têm segundo grau completo e os outros não tiveram oportunidade de terminar, inclusive eu”, comentou Toinzinho.

O comércio de João Maria, a Mercearia N. S. da Guia, foi a primeira da região do Irmãos Auler e Várzea da Olaria. As compras que ele vendia a prazo e não recebia, além dos tempos difíceis, fizeram com que fechasse as portas do negócio que mantinha. “Ele começou a ter problemas de tanto fazer caridade. Vendeu fiado para muita gente, muita gente não pagou, até que ele quebrou. Passamos muita dificuldade. Naquela época, várias pessoas ajudaram financeiramente, com R$ 5/R$ 10, para não deixar a gente perder ficar sem nossa casa. Porque nós iríamos morar nas casinhas da [Fundação] São Vicente [de Paula]. Mas, a população se uniu e não deixou. Eu quero ressaltar aqui a figura do Padre Luiz Turkenburg, que foi realmente um pai para a gente naquele momento e nos ajudou muito, além de outras pessoas, de políticos da época que nos ajudaram a manter a nossa casinha. Meu pai foi arrecadando daqui e dali e pagando as pessoas. Ninguém ficou sem receber. Uns perdoaram, outros receberam através dessa ajuda de terceiros. Naquela época eu tinha 11 anos, então não tinha muito a oferecer para ele”, contou Toinzinho.

Após o fechamento da mercearia, João Maria passou a trabalhar como meeiro na fazenda de João Conquista, na região da Várzea da Olaria, onde plantava feijão, cará e outros alimentos. Além disso, ele ainda era operário no forno da Sidersa, antiga Simental, e assim foi levando a vida, com dupla jornada.

“Meu pai plantava cará para esse fazendeiro e a gente colhia para vender na rua. Se vendêssemos 100 quilos, por exemplo, parte era fiado. Recebendo pelos 100 Kg ou não, os 50 kg do proprietário das terras ele fazia questão de pagar. Se tivesse prejuízo, e houve muito, era da parte dele. Plantava, colhia, trazia para casa, comercializava de casa em casa e nunca pegou 1 kg a mais para ele. São coisas pequenas que eu, por exemplo, não faria igual. Se a divisão é igual, acho que o prejuízo deveria ser igual, mas ele não aceitava, preferia se prejudicar do que aos outros. Esse era o lema dele, foi a vida inteira. Realmente é um ídolo que eu tenho, um ídolo que nós filhos temos”, lembra.

Igreja do Irmãos Auler

Assim como foi no vilarejo em Crucilândia, João Maria encabeçou o movimento para a construção da igreja do Irmãos Auler.

“Começou com um salãozinho. Da mesma forma que o meu pai fez lá na roça, através da sua liderança, da sua vontade de ajudar, ele iniciou o processo e várias pessoas apoiaram. Eu lembro que a gente fazia barraquinhas, fazia teatro, aqueles mais simples, a gente mesmo vendia os ingressos na rua para arrecadar recursos para ajudar na construção. Outras pessoas também contribuíram, como padre Luiz Turkenburg, e assim construíram aquele salão do Irmãos Auler”, recordou o vereador.

João Maria tinha grande participação nas atividades católicas e era requisitado na comunidade pela forte ligação com a igreja. “Meu pai foi o primeiro ministro da Eucaristia a atuar com o saudoso padre Luiz Turkenburg e também foi confrade. Ele ainda fazia encomendações em casa, naquela época falava encomendações, não tinha velório direito, então quando o padre não podia ir, sempre era ele quem substituía”, conta.

O ilustre morador do Irmãos Auler pregava sempre o respeito com o próximo e fazia questão de repassar isso aos filhos.

“Nunca ouvimos, nós irmãos, meu pai e minha mãe trocarem uma palavra negativa/ pejorativa, um com o outro. Meu pai nunca falou um palavrão, não deixava a gente falar, sempre falava que o que a gente via na rua não deveria trazer para dentro de casa. ‘Se não for notícia boa não traz!’. Nós, enquanto filhos, não podíamos, por exemplo, sair do quarto para o banheiro sem camisa. Tinha que ser de roupa, porque ele falava que o nosso corpo é sagrado. Nós tínhamos que respeitar, não podíamos ver futebol em casa, tínhamos que ir à missa todos os domingos e rezar o terço todos os dias.

Lado humanitário

Em meio às ações comunitárias, João Maria ainda atuava como voluntário na Fundação São Vicente de Paula. Lá, ele teve a ideia de fazer eventos que exaltassem as pessoas que ali viviam, fazendo com que se sentissem acolhidas e queridas.

“Ele não só pregava a caridade, ele praticava! Ajudou muitas pessoas e foi ajudado também. Fazia mutirão para ajuda-las a construir a casa própria. Ele tomava conta das casinhas de São Vicente. Meu pai preparava um culto no domingo, às 19 horas, e homenageava o aniversariante da vez, fazia surpresa para eles, pedia para os convidados levarem lembrancinha, por mais simples que fosse. Foram tantos homenageados, pessoas esquecidas pela sociedade. Isso era muito bonito, era gratificante!”, lembra Toinzinho.

Em 1996, João Maria foi convidado pelo ex-prefeito Hidelbrando Canabrava, conhecido pelo apelido de “Bandinho”, para ser candidato a vereador. No entanto, não aceitou e incentivou o filho a participar da eleição. Antônio de Miranda concorreu ao pleito pela primeira vez naquele mesmo ano e desde então, ocupou cadeira na Câmara em mandatos consecutivos, chegando ao cargo de vice-prefeito, no período de 2013 a 2016. João Maria faleceu aos 70 anos, em 2005.

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