Refugiados venezuelanos chegam a Itaúna sonhando com um futuro melhor

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Acolhidos pela Comunidade Bom Pastor, grupo espera encontrar emprego e condições de se auto sustentar

Nessa quarta-feira, 17, a Comunidade Bom Pastor recebeu 23 refugiados venezuelanos, que depois de passar fome, frio e muitos desafios tentam começar uma nova etapa da vida.

Eles desembarcaram em Belo Horizonte, onde faziam parte de um grupo com mais de 70 pessoas, fugindo da crise e da miséria que assolam o país de origem. Os refugiados se espalharam, em busca de emprego e esperança de uma vida melhor. Para Itaúna, vieram cinco famílias e cinco solteiros, que buscam se ajustar e principalmente mandar dinheiro para quem ficou lá. A cidade foi escolhida após um padre, que faz parte do projeto “Acolhe, Minas”, visitar a comunidade Bom Pastor e pedir ajuda e colaboração. “Este padre esteve aqui no último sábado pedindo ajuda, dissemos que tínhamos a capacidade para acolher três famílias, mas quando ele viu o lugar pediu e disse que cabiam mais e foi o que fizemos. Além disso, eles chegaram aqui através de outros cinco venezuelanos que estão em Carmo do Cajuru, eles mantiveram contato com a gente e queriam trazer suas famílias, nós nos reunimos e conseguimos trazer três famílias dos que já estão lá”, explica o coordenador da Comunidade Bom Pastor, Nicéphoro Alves Maia.

Entre os refugiados estão dois recém-nascidos, de três meses, crianças entre um e 12 anos e um adolescente de 15 anos.

A refugiada Rosmelys Espinoza, 35 anos, diz que chegou à fronteira há dois anos, e que desde então, sempre que consegue um trabalho envia parte do que ganha para sua família, na Venezuela. “Deixei minha irmã, família, tudo, quando consigo um dinheiro, estou sempre mandando para que ela possa comprar algo para comer. Vocês não imaginam como está lá, passamos muita dificuldade, meus filhos passaram muita fome, até quando passamos a fronteira ainda enfrentamos muitas dificuldades, dormimos no chão e todo venezuelano que está em Boa Vista ou em outras partes do Brasil só estão querendo um futuro melhor, principalmente para as crianças”.

Jesus Hernandes, 48 anos, diz que ficou seis meses dormindo na rua já que não conseguiu um alojamento em Boa Vista e nem, trabalho por lá. “Ofereceram-me para vir para cá porque falaram que a demanda de emprego é maior. Passei seis meses caminhando, e continuo essa jornada, dia e noite”.

Já Luís Henrique Martinez, 28 anos, morava em Caracas e comenta que lá, a situação está precária. Ele trabalhava duas semanas e o que recebia não dava para comprar um quilo de arroz. Com a esposa grávida e um filho de um ano a saída foi fugir para o Brasil. “Quando chegamos, a fronteira estava fechada, conversamos e imploramos para os militares venezuelanos nos deixar passar e assim eles fizeram e chegamos a um abrigo onde ficamos 13 dias, como minha mulher estava grávida, fomos para Boa Vista onde ela deu a luz”.

Comunidade Bom Pastor recebem doações

Mal haviam se instalado no Bom Pastor, os venezuelanos já puderam sentir o calor e o acolhimento dos itaunenses. Tão logo se espalhou a notícia de que as famílias ficariam em Itaúna uma corrente de solidariedade se espalhou através das redes sociais.

Maria Lúcia Oliveira, auxiliar administrativa da comunidade, ressalta que o pedido de ajuda que circulou nas redes sociais não foi feita pela comunidade Bom Pastor. “Nós entramos em contato com alguns empresários, que já colaboram conosco e nos ajudam constantemente, e pedimos um pouco mais de atenção para recebermos esse pessoal, só que eu não sei como começou a circular essa solicitação de contribuição, mas de qualquer forma agradecemos, porque realmente estamos tendo muita ajuda, em todos os sentidos”, relata.

Mas a vinda não é recheada apenas de boas ações. Ainda que apenas sussurrado algumas pessoas não gostaram da vinda dos venezuelanos. Muitos consideram temerária a acolhida, pois pode abrir portas para que mais refugiados venham para cidade. Informações extraoficiais dão conta que a prefeitura também não foi consultada e que ficou sabendo da acolhida pela internet. “Eu entendo o drama deles, sei que é difícil. Mas este tipo de coisa tem que ser planejada. Não sabemos quem são, o que fazem, se quem está vindo realmente está fugindo da fome e do caos. Acolhê-los sem estrutura pode significar um problema social maior lá na frente” pondera o aposentado Helder Gomes.

Nicéphoro diz que sente, realmente, um olhar diferenciado de alguns, mas que estes são a minoria. “Tem pessoas que acham ruim, mas nosso foco é ajudar nossos irmãos que estavam na rua, com suas crianças, sem esperanças”, acrescenta.

 A psicóloga e gerente da Saúde Mental, Cristiane Santos Nogueira, espera que o itaunense tenha consciência da situação que os trouxe a cidade e demonstre, principalmente, respeito. “É uma pessoa com outra língua, outra cultura e isso ameaça as pessoas e que começam a falar ‘eles vão roubar nosso emprego’, mas de que forma eles iriam fazer isso? Deveríamos estar construindo uma sociedade que deveria ter emprego para todos, não deveria ser um ou outro e sim, um e outro, uma sociedade inclusiva, precisamos fazer essa leitura que ao invés de montar essa fronte de guerra de tomar o estrangeiro como inimigo, construir uma comunidade com concepção mais humana, sem a exclusão do outro, pode ser um pensamento utópico, mas espero que o pensamento de que Itaúna seja o lugar preferido da vinda de pessoas, se torne uma verdade”, afirma.

O desafio de superar a barreira da língua

Na quinta-feira, parte do grupo esteve na Uaitec. A escola, mantida pelo governo federal oferece cursos profissionalizantes, de especialização e ensino de idiomas, uma das primeiras barreiras que o grupo terá que transpor.

A engenheira e professora de espanhol, Ayonara Coelho levou alguns dos refugiados para sua aula e se emocionou com os relatos dos venezuelanos. “No olhar deles percebi dignidade, esperança, nenhum vitimismo e sim um desejo de trabalhar, um desejo mínimo de reconstruir a vida. Foram na minha turma de espanhol com extrema solicitude, com alegria, respeito nos falar sobre suas expressões idiomáticas, música, geografia e sistema político, onde os alunos se sentiram muito agradecidos. Júlio era açougueiro na Ilha de Margarida e Bruno era empresário no ramo de segurança de residências, câmeras, cercas elétricas , alarmes, etc na mesma ilha”, conta com emoção.

Ayonara afirma ainda que coisas cotidianas como andar despreocupadamente na rua, tomar um refrigerante eram considerados luxos para eles. “Enquanto tomávamos um refrigerante, com Bruno e Júlio, eles nos relataram que tomar uma simples Coca-Cola para eles se tornou um luxo. Confesso que me senti desconcertada pelas inúmeras vezes que nem percebia o sabor do que eu pudesse estar bebendo. Deixava copos pelo meio ou simplesmente ignorava”.

Dignidade passa pela conquista de um emprego

Achar um emprego na cidade é a grande esperança dos venezuelanos, que começam a sorrir após passarem por tanta tragédia. “Eles estão bem alegres, se sentindo acolhidos, não só pela comunidade, mas também por toda a cidade, estão chegando muitas doações, então estamos muito gratos quanto a isso”, relata Nicéphoro Alves.

O coordenador da comunidade ainda afirma que as famílias estão empenhadas em ajudar e participar na organização da casa. “O andamento deles aqui está sendo ótimo, estão ajudando bastante, quando nós dissemos que só conseguiríamos acolher três famílias era porque só tínhamos três quartos, mas havia outros quartos maiores, então fizemos as divisórias e eles que colocaram, arrumaram, eles que estão fazendo o almoço, alguns já até passearam”, afirma.  

A comunidade Bom Pastor acolherá os refugiados até que eles consigam uma renda e moradia na cidade. “Recebemos muitas ligações de pessoas oferecendo trabalho, mas ainda vamos analisar o perfil dessas pessoas para saber em qual trabalho elas se encaixam e assim encaminhá-las”, garante Maria Lúcia, auxiliar administrativa da Comunidade Bom Pastor.

Nicéphoro acrescenta que o intuito deles virem à Itaúna é para que possam arrumar serviço para reconstruir suas vidas. “Estamos fazendo o currículo deles direitinho para encaminha-los a serviços, também ajudaremos eles a arrumarem um barracão, um lugar para morar, com a ajuda da comunidade, para que eles possam construir um lar, fazer a vida deles, seja aqui ou em Divinópolis, Cláudio, onde eles conseguirem emprego”, ressalta.

O diretor do Centro de Desenvolvimento Econômico e Socioambiental de Itaúna – CDE – Maurício Nazaré, afirma que a cidade é hospitaleira assim como a entidade. “Itaúna é uma cidade muito acolhedora, assim como as entidades do CDE – ACE Itaúna, CDL Itaúna, Sindicomércio, Sicoob Centro-Oeste, Sindimei e Aconita. Temos em nossos princípios a responsabilidade social. Neste caso, nos colocamos à disposição para entender as necessidades destes que chegam a nossa cidade e, desta forma, nos colocamos à disposição para trabalhar junto com as demais entidades do município e Poder Público municipal, a fim de ajudar a estes nossos irmãos”.

1 COMENTÁRIO

  1. Meus parabéns a comunidade Bom pastor. Foi uma atitude louvável. Aqueles que estão reclamando que vão tirar os seus empregos são os mesmos que não gostam de trabalhar. Aqui em Itaúna tem muito disso. Já precisei varias vezes de mão de obra e eu mesmo tive que fazer porque esses que estão falando que os venezuelanos vão tirar os seus empregos não compareceram porque a preguiça ou a cachaça não deixou.

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