Sem incentivo, Reinado em Itaúna pode acabar em 20 anos

0
3181

A corte de Rainhas e Rei busca alternativas para atrair os jovens para a festa

Neste sábado, 17, a programação continua com a concentração das Guardas em frente ao altar para a celebração da santa missa de encerramento.

Os relatos do início dos festejos do Reinado em Itaúna são de 1852, quando aconteceu o transporte da imagem de Nossa Senhora do Rosário da capela do Rosário para a Igreja Matriz de Sant’Ana, feita pela Guarda do Congo. Desde então, no mês de agosto é realizada a festa, que se tornou uma tradição e patrimônio de Itaúna. No primeiro dia de agosto é feita a abertura da festa com o levantamento de bandeira e, na sequência, terços em homenagem à Nossa Senhora e várias celebrações eucarísticas.

O ponto alto da festa aconteceu na quinta-feira, dia 15, feriado municipal, e apesar de toda a movimentação da cidade com a presença de guardas de vários municípios e de milhares de devotos no alto de Rosário, os organizadores e participantes da festa estão preocupados em manter viva a tradição do Reinado.  

Segundo o Rei Congo, Dilermano Vitor, o Bimba, a maior dificuldade enfrentada pela organização da festa é passar a tradição aos mais novos, descendentes da comemoração centenária. “Hoje, infelizmente, filho não quer seguir a herança que os pais deixaram, no sentido de preservar as raízes culturais. Estou com 59 anos, e continuo o exemplo que meu pai deixou sobre Reinado, a tradição, a oração e a fé. Guardo comigo a missão de continuar o que ele viveu porque fui educado assim. E me espelho no exemplo de meu pai, mas essa nova geração, não pensa desta forma”, destaca Bimba.

Bimba salienta ainda que tem dificuldades em passar e transmitir seu legado para a próxima geração e vê, a cada ano, mais espaços vazios na procissão que há alguns anos era acompanhada por grande parte da população de Itaúna.

Neste ano, na tentativa de mostrar a beleza de festa e atrair mais jovens, a festa contou com apresentação do coral da Universidade Federal de Minas Gerais, no bairro das Graças, na casa da Rainha Conga, Dona Mariana, mãe do Rei Congo Dilermano, localizada na rua Mirócles Carvalho, e logo após, nas celebrações ecumênicas do alto do Rosário.

É lamentável ver o desinteresse dos jovens pela cultura e pela tradição do congado e o que percebemos é que “é mais fácil seguir o caminho do mundo do que das tradições”, desabafa Bimba. 

Menos gente

A história de resistência dos negros está contada nas manifestações culturais brasileiras e, de forma particular, na história itaunense. Após os negros serem proibidos de participar das festas católicas na Matriz, que era no alto do Rosário, eles construíram uma casa ao lado da igreja e começaram a realizar suas cerimônias.

Uma tradição antiga que permanece nos dias atuais é o café cultural comunitário e o almoço para as guardas. A Rainha Perpétua, Maria da Conceição de Jesus, a popular Dona Sãozinha diz que sempre recebe ajuda para fazer o café e o almoço. “Trabalhei em muitas casas, meus patrões me ajudavam e hoje os filhos deles também. Pessoas que participam da festa também se solidarizam. Já fiz muito almoço e a diferença é que hoje, com a idade, preciso da ajuda da minha família para preparar as refeições”.

A Rainha Perpétua, com seus 97 anos, concorda com a preocupação do Rei Congo e diz que tenta, a todo custo, manter a tradição em sua família, incentivando filhos e netos, desde a confecção das roupas até o preparo da comida que será servida aos congadeiros.

“Diminuiu bastante o número de pessoas que participavam do Reinado. Lembro que há cerca de 20 anos, as crianças já começavam a bater a varinha e a se entusiasmar com os cânticos e celebrações. Hoje, os jovens são diferentes; temos que ficar insistindo e quando eles resolvem subir ao Rosário, já pensam na hora de voltar; muitas pessoas não vão com fé e só pensar em farrear”, diz a Rainha Conga com a sabedoria de sua experiência de vida.

Incentivo

O Rei Congo Bimba faz um desabafo e diz que, se depender dele, a tradição não acabará. “Sei das dificuldades de passar o bastão, mas eu não desisto; vou lutar para que o “Reinado” não acabe. Não sei se será possível passar o título de Rei para meus filhos, mas não posso desistir; terei meus netos e bisnetos e tenho que manter viva a tradição dos meus antepassados”.

Bimba pede o incentivo das escolas para ensinar às crianças a importância da festa. “O Reinado faz parte da cultura de Itaúna e é preciso que seja mais divulgado, principalmente nas escolas e, não apenas em agosto, mas durante todo o ano. É preciso promover eventos culturais abordando tradições e raízes, porque as pessoas precisam saber de onde vieram e a importância de preservar a crença dos seus antepassados. Se não fizermos um movimento em prol do Reinado, a festa vai acabar”, finaliza Dilermano.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui