Uma fé, duas capelas, várias histórias

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Desde a sua fundação, Itaúna é uma cidade que respira religiosidade. A fé é uma característica indelével de seu povo. Além das aparições de Nossa Senhora, no bairro de Lourdes, da transformação de hóstia em sangue, no Garcias, a cidade tem na festa do Reinado, sua maior expressão religiosa.

Uma festa que já foi considerada pagã e, inclusive, com os negros sendo impedidos de realiza-la na Igreja de Nossa Senhora do Rosário.

João Dornas Filho, historiador itaunense, em seus escritos, conta que desde sempre as promessas eram feitas durante o ano para serem cumpridas nos dias do “reinado”. Mas que em 1940, o arcebispo de Belo Horizonte, alegando que a festa não condizia, pelo seu sabor meio-pagão, com a dignidade da Igreja, proibiu a realização do Reinado na Igreja. “Entretanto, os pretos construíram no mesmo logradouro um edifício, sem aparência externa de tempo católico e continuam a realizar anualmente as cerimônias do culto à Senhora do Rosário. É tradição em Itaúna que a capela interditada pertence mesmo aos negros” escreveu o historiador.

Por isso Itaúna é a única cidade mineira com duas capelas do Rosário, no alto do Morro do Rosário. A capelinha nunca foi abençoada e reconhecida pela Igreja Católica como capela, mas mantém-se preservada como sede da Irmandade das Sete Guardas. Após a morte do bispo as festas voltaram a ocorrer em ambas as igrejas.

Milagre

João Dornas relata ainda que no decênio de 1840, o negros, que ainda eram escravos construíram pessoalmente, nas folgas que lhes davam, uma capela onde hoje é a Igreja da Matriz. Naquela época a matriz era a Igreja no alto do Rosário. “Tendo o arraial se expandido para o lado em que estava a capela dos pretos, uns missionários capuchinhos que por lá estavam construindo o cemitério local, e por causa de um milagre que contarei mais adiante, sugeriram a permuta das capelas: ficaram os pretos com a do morro da Lage e cederiam para a matriz a que havia construído na praça João Pessoa, hoje praça da matriz. E assim se fez” redigiu o historiador.

O “milagre” a que se refere João Dornas seria  a lenda que diz que quando se concluiu entre o vigário e os negros a permuta das capelas, tratou-se logo de fazer descer do alto do Rosários todos os pertences, imagens, paramentos religiosos que lá se encontravam Descidas as imagens para a nova matriz, verificou-se que a da Senhora do Rosário, durante a noite, desaparecera milagrosamente do novo templo e voltava para o seu antigo nicho no alto do morro. Reuniram-se os negros e cantando e dançado as suas danças, repunham-na no altar da nova morada. Esse fato se repetiu três vezes, no fim das quais, Frei Eugênio, um dos capuchinhos,  sugeriu que, sendo essa a vontade da Senhora do Rosário, lá a deixassem com os pretos e muitas festas se fizessem em regozijo de tão evidente milagre.

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