Itaúna 119 anos: uma trajetória de riqueza histórica, cultural e educativa

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Foto: Márcio Carvalho

Em 2 de janeiro de 1902, surgia o nosso município. Sant’Ana do São João Acima nasceu em torno dos ranchos de tropas, ao calor da trempe dos tropeiros. “O ranger das mós e o surdo bater dos monjolos, com os sapos e os grilos entoavam a sinfonia, que os pioneiros aplaudiam sob a luz das lamparinas e o brilho dos pirilampos”. Itaúna que é um termo de origem tupi e significa “pedra negra”, por meio da junção dos termos ita (“pedra”) e una (“preto”), foi criada pela Lei Estadual número 319, sancionada pelo governador Silviano Brandão em 16 de setembro de 1901. Seus primeiros distritos foram os de Santana do São João Acima, Carmo do Cajuru, povoado dos Tinocos, Itatiaiuçu e Conquista (hoje Itaguara).

A maior contribuição para a história da cidade, que conhecemos hoje é do historiador João Dornas Filho, itaunense nascido em 7 de agosto de 1902. Sua obra mais conhecida é “Itaúna – Contribuição para a História do Município”, publicada em 1936. De acordo com Dornas Filho, o primeiro morador do município foi Antônio Gonçalves da Guia, do que discordou o engenheiro e empresário itaunense, já falecido, Osmário Soares Nogueira. Também estudioso da história da região, Nogueira tinha como o habitante primeiro Manuel Pinto de Madureira. A polêmica sobre o primeiro povoador da região não se encerra nesses dois nomes. Guaracy de Castro Nogueira, historiador e genealogista itaunense, sustentava que o pioneiro na região foi o Sargento-mor Gabriel da Silva Pereira, tronco originário dos Pereira Camargos da Itaúna de hoje.

As obras de João Dornas narram que “o que se conhece da história do Município de Itaúna está entrelaçado com a história de Pitangui, Bonfim e Pará de Minas, pois o arraial de Santana de São João Acima pertenceu, por muitos anos, a esses municípios”. Até emancipar-se politicamente, Itaúna pertenceu administrativamente aos municípios: Sabará (1711), Pitangui (1715), Pará de Minas (1848), Pitangui novamente (1850), Pará de Minas (1858), Pitangui (1872), Pará de Minas (1874). Já na obra editada em 1936, o historiador narra que Itaúna foi um “lugar de escassa tradição na história do nosso Estado na época em que as minas de Vila Rica, Ribeirão do Carmo e Sabarabuçu enchiam a imaginação e os alforjes dos intrépidos paulistas, Santana dormitava sossegadamente, lavrando a terra e criando o gado nas margens do pobre e escachoante São João, que ainda hoje carreia nas suas águas o nosso minguado aluvião aurífero para as venturosas paragens do Pitangui…”.

A história conta que os primeiros moradores da cidade tinham grande riquezas, terras e fazendas de grande extensão, muitas com escravos, que formaram o povoado de Itaúna e Itatiaiuçu.

Na cidade que completa na próxima quarta-feira (16), 119 anos, o bairro de Nossa Senhora de Lourdes, bem como a região do bairro Padre Eustáquio abrigam em bons números descendentes destes grandes fazendeiros que tinham inclusive amizade com a família real. Ainda narrado nas obras de João Dornas “naquele tempo em que a descoberta do ouro era a preocupação dominante dos paulistas, lugar que o não escondesse nas suas entranhas, não merecia a atenção do bandeirante. E esse era o caso de Santana, que humilde e ignorada, plantava e criava para o sustento dos mineradores vorazes”.

Itaúna vista pelos itaunenses

Não há ninguém melhor que os itaunenses para falar sobre a cidade. Nesse sentido, o Jornal S’PASSO ouviu representantes da educação, política, artes plásticas, história, literatura e economia. O questionamento foi um só: O que Itaúna tem a comemorar nesses 119 anos?

O ex-vereador João Viana da Fonseca, 90, é campeão de mandatos na Câmara Municipal. Foram 32 anos em sete mandatos consecutivos. Em resposta à nossa reportagem, ele afirmou que “Em primeiro lugar, a grandeza de seu povo. Em segundo, nunca teve um prefeito cassado em sua história e por último, a vitória de seus líderes nas esferas políticas, religiosas, empresariais e comerciais”.

O escritor e editor, Toni Ramos Gonçalves, afirma que é importante se pensar à frente, no futuro da cidade. “Itaúna é um celeiro de grandes talentos artísticos, principalmente nas Letras. E ao pensarmos o futuro, não podemos esquecer nosso passado. Nessa minha homenagem a esta cidade com tantas histórias, não podia deixar de evocar dois ilustres escritores itaunenses que conquistaram fama e sucesso além de nossas fronteiras, mas que infelizmente estão esquecidos. Primeiramente, cito Mário Matos (1891-1966), o primeiro itaunense a publicar um livro (Discursos) em 1927, que desde muito jovem se destacou no teatro, jornalismo e foi um político de destaque. O segundo é o ministro Oscar Dias Corrêa (1921-2005), o único itaunense a vestir o fardão dos imortais da Academia Brasileira de Letras e patrono da Academia Itaunense de Letras, fundada em 2015 na mesma data de aniversário da cidade. Fui um dos fundadores e tanto me orgulho. Mário Matos e Oscar Dias Corrêa contribuíram para nossa história e servem de exemplo e inspiração para os jovens talentos. Por isso, a importância de resgatar suas memórias. No mais, sinto muito orgulho de ser filho desta terra e a parabenizo pelos 119 anos!”

O professor de arte e músico, Levy Vargas, diz que embora a cidade ainda esteja sem a devida visibilidade e reconhecimento, é possível celebrar as novas gerações de artistas da cidade. “Muita gente talentosa produzindo trabalhos autorais na música, teatro, artes visuais, literatura e poesia que me fazem ter esperança de um futuro mais promissor para a arte e cultura na nossa cidade, apesar do seu conservadorismo histórico e sucessivos retrocessos … !”

A aposentada Maria Lúcia Menezes de Carvalho, de 75 anos, conhecida no bairro de Santanense como Dona Lucinha, relembra os primórdios do município e diz que o desenvolvimento é a base de tudo. “Itaúna mudou muito. Há anos atrás era uma cidade pequena, sem muitos recursos, só havia duas grandes empresas, a Santanense e a Itaunense, onde todos trabalhavam. Itaúna cresceu, hoje é uma cidade com muitos recursos. Temos um bom hospital, muitas indústrias e agora temos a belíssima sede da nova prefeitura. O que Itaúna tem a comemorar aos 119 anos? Esse seu desenvolvimento fantástico. Tenho orgulho de ser itaunense”

Já o historiador Charles Galvão de Aquino, afirma que ao longo de muitas décadas, historiadores escreveram sobre a história de Itaúna e nesta ação, foi registrada uma vasta e opulenta listagem de nomes que contribuíram para a formação e criação do município, dentre eles estão: fazendeiros, comerciantes, doutores da Lei e doutores da saúde. “Não obstante, é importante ressaltar que esses grandes homens, somente conseguiram estes grandes feitos, através da ajuda de outros grandes homens, no qual, a história não registrou. A isso denominamos ‘História de Bastidores’, que na sua mais simples definição no dicionário seria, ‘um espaço do palco que não é visto pelo público’. Seriam os escravos, pedreiros, jardineiros, operários de fábricas, doceiros, sapateiros, lavradores, alfaiates, relojoeiros, parteiras, trabalhadoras do lar, confeiteiras e muitos outros. No Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana, Arquivo Público Mineiro e Arquivo Histórico de Pitangui, encontra-se uma vasta documentação dos séculos XVIII ao XX, no qual, oferece ao historiador elementos não só para pesquisar, mas para entender as relações econômicas, sociais, culturais, políticas e religiosas do município de Itaúna. Vivemos novos tempos e novos registros virão com muitas histórias de bastidores!”

O Presidente do Sindicormércio e também do Supermercado Rena, Alexandre Maromba, através de versos escritos por ele, mostra o quão grande é a preocupação para com a cidade, e como integrante da economia itaunense, solicita para que os residentes promovam mais atenção e cooperativismo ao município. “Sonhei que Deus havia dado voz à nossa cidade, então, na véspera do seu aniversário, Itaúna disse aos Itaunenses: Queridos filhos, tenho muito orgulho de tudo que construímos nestes meus 119 anos, progredimos e crescemos em vários setores. Graças ao esforço de seus antepassados e de vocês, sou reconhecida como uma ótima cidade da região. Porém, sinto falta de uma coisa, que gostaria de pedir-lhes nesta oportunidade: que toda minha população tenha consciência que eu pertenço a vocês! Somos uma comunidade! E se eu sou de todos vocês, e tudo que temos nos é comum, vocês precisam cuidar de mim, como cuidam da sua casa. Eu sou sua casa, fora de sua casa! Podemos, juntos, construir a melhor cidade do mundo para se viver, basta que cada um tome a iniciativa e tenha esta esperança e desejo dentro de si. Itaunenses, não esperem que venha de algum poder maior a atitude para me melhorar. Ajam por si mesmos! Vocês são os protagonistas! Coletivamente, com interação e cooperação, vocês podem fazer coisas extraordinárias por mim! Tudo começa individualmente, no seu íntimo, com o desejo de morar na melhor cidade do mundo! Cuidem dos meus jardins. Plantem mais flores. Cuidem de mim”.

O artista visual e jornalista Júnior Fonseca também respondeu à pergunta do Jornal S’Passo: “Quando se pensa em comemoração, imagina-se grandes feitos, atos heroicos, ou uma mudança que coloque em marcha uma grande conquista. Se considerarmos que aniversários são para agradecer os feitos do último ano vivido, não vejo o que comemorar. Um Legislativo recheado de denuncismo, muitas denúncias motivadas por vinganças e questões pessoais, dois grupos políticos tentando chegar (ou continuar) no Executivo a todo custo, sem um olhar altruísta para a população, são ações dignas de parlapatões, patifes e paspalhões.

Mas para não parecer pessimista e nem óbvio demais, creio que podemos comemorar a melhora na gestão do Hospital Manoel Gonçalves e a iniciativa de empresários da cidade em ampliar a estrutura física do local. Durante o último ano, as reclamações de demora no atendimento, pacientes no corredor, mau atendimento, praticamente foram exceções e/ou nem existiram. A resposta, até então, à pandemia, também foi exemplar: quem precisa de atendimento médico no local, tem a garantia que será atendido”.

A historiadora e atriz, Regina Glória, representando o teatro, também falou à reportagem: “De acordo com pesquisas realizadas pelo Marco Antônio Lara, nosso querido Cotonho, para a História do Teatro em Itaúna, há registros desde o século XIX. Contudo, acredito que o Teatro fazia parte do cotidiano dos habitantes de nossas e nossos ancestrais muito antes. O Teatro é a expressão de seu povo, através dele celebramos e reivindicamos os nossos desejos e anseios. Itaúna tem muito o que comemorar (no Teatro), não só nos seus 119 anos de emancipação política, mas em toda sua História. O Teatro sempre se fez e fará presente por meio dos atores, diretores, dramaturgos, técnicos e plateia! Me orgulho por fazer parte da História do Teatro de Itaúna, que comecei no século XX e agora no XXI. Que o Teatro continue sendo um meio de registro da História do povo itaunense, que nós artistas, continuemos esse legado herdado pra gerações futuras. E que Itaúna e sua gente saibam valorizar a arte do fazer teatral, pois a maior riqueza da cidade é sua gente e Cultura!”.

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