Sete Perguntas para a escritora itaunense Maria Lúcia Mendes

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A escritora Maria Lúcia Mendes é mais que autora premiada e presença destacada nas bibliotecas instaladas por aí, em lançamentos literários e nas indicações que a colocam como a ‘dama das letras’, embora o título possa carregar pieguice extremada. Ela é um a mulher simples, contadora de causos e sua memória privilegiada nos convida a passear por lembranças de Itaúna doutros tempos, com personagens sensíveis, divertidos e até mesmo polêmicos. A prosa e a poesia de Maria Lúcia Mendes são fontes de boa leitura – e de escuta. Elas traduzem a alma das gentes e a competência da autora em colocar no papel (e em livros) é aclamada por pessoas simples e intelectuais renomados.
Professora aposentada – das escolas primária e universitária –, Maria Lúcia Mendes tem 80 anos. É mãe de Moacir Júnior, Luciana e Maria Tereza e avó de Luís Fernando, Rafael, Ana Clara, Alice e João Marcelo. É autora de 16 livros publicados (todos com edições esgotadas), de crônicas, poesias e um pouco de autobiografia. Ela recebeu a reportagem do Jornal S’PASSO em sua casa na tarde de quarta-feira (27), de máscara, como convém a todos os humanos nesses tempos difíceis.

Maria Lúcia, sabemos que você gosta de sair, de passear e de conversar com as pessoas. O que fazer nesta pandemia? O que você tem feito? Escrito e lido muito?
Ah, tempos difíceis. Tenho cuidado de plantas e de uma hortinha no quintal. Mexo com alguns trabalhos manuais também. Não tenho escrito nada, há um bloqueio, uma aridez literária. Tenho ideias, mas não consigo escrever. Agora, leitura sim, muita. Creio que se não fossem os livros que leio estaria numa situação próxima da depressão. As notícias e a própria pandemia nos trazem situações muito ruins, que nos tiram a paz. A literatura nos traz essa paz de que precisamos.


E os meios virtuais, a internet, não são boas alternativas para esses tempos?
Sim, atendem às nossas necessidades. Tenho, na medida do possível, utilizado o WhatsApp e também o Facebook. Gosto muito ainda do telefone, já que não se pode sair.


Você não está mesmo saindo ou recebendo visitas?
Não, saio muito pouco, somente em casos de extrema necessidade. Vou ao banco, muito pouco, e aos supermercados – prefiro que as pessoas vão para mim (ri). E as visitas, recebo pouco também, por questão de cidadania até. Essa semana recebi duas moças, estagiárias da Gerência de Cultura, que vieram conversar comigo sobre a História de Itaúna. Os tempos são mais para o isolamento, para as famílias dentro de casa.


Você entende que o pós-pandemia trará um mundo diferente do que este em que vivemos?
Quando começou a pandemia da Covid-19 eu tinha muitas dúvidas e não acreditava que iria durar tanto tempo. Hoje vejo que estamos vivenciando um processo enorme de mudança, mudança de comportamento, de postura, de sentimentos. As pessoas estão aprendendo de novo a valorizar mais as outras, as coisas que possuem. Acredito que quando tudo isso passar, as pessoas vão querer fazer coisas simples novamente, como visitar amigos, em vez de somente ligar ou passar mensagens. Vão querer visitar lugares, passear, conversar.


E a literatura, o que será dos livros? Sabe-se que o Brasil lê pouco e mal. Os escritores continuarão produzindo?
O Brasil lê pouco e mal, isso é certo. A nossa língua é maravilhosa e a nossa literatura traduz essa maravilha e muito mais. Infelizmente, o Brasil é invadido por estrangeirismos em sua língua, que é tão rica, o que facilita por um lado, mas que a prejudica de certa forma. Mas, a literatura acompanha a vida. Penso que ela estará ajudando as pessoas a se curarem depois dessa pandemia, porque hoje o ser humano está adoecido. O mundo está prejudicado econômica e socialmente. Os consultórios médicos estão cheios, pessoas deprimidas, ansiosas, sem esperança. Acredito que tudo isso servirá de assunto para as produções literárias e de outras artes.


A escritora Maria Lúcia escreveu muito e publicou em boa medida, principalmente em se tratando de publicação independente. Existe para você um livro preferido ou mais de um?
É igual filho, talvez não seja um preferido, mas aquele que te traz mais alegrias. Meu livro primeiro, “Recado em Pedras e Pétalas”, é assim. Escrevi sem grandes pretensões, com a cara e  a coragem, e ele foi muito bem recebido pelo público, pela crítica. Em pouco tempo foi reeditado. Agora, tem um que hoje eu penso que não deveria ter escrito, a começar pelo título: “Badra”. Se pudesse reescreveria todo ele. Penso que não construí bem a narrativa, os personagens… Gosto muito dos meus livros infantis e, também, de “O cheiro da maçã”, que me deu oportunidade de conhecer a Academia Brasileira de Letras e de ganhar muitos prêmios. Mas, o melhor de tudo isso foram as amizades que conquistei com a literatura, as histórias vivenciadas nos lançamentos, até mesmo os fatos pitorescos.


Para encerrar, na segunda-feira, dia 1º, o escritor itaunense Oscar Dias Corrêa completaria 100 anos de nascimento. O mais ilustre dos itaunenses, como avaliou outro escritor, Miguel Augusto Gonçalves, Oscar Corrêa não é lembrando em Itaúna e, parece, que a data não será comemorada. Qual é sua opinião sobre isso? Você conheceu o Oscar Corrêa?
O Oscar Corrêa foi e é um grande itaunense, ele amava muito essa terra, em diversas oportunidades pôde se manifestar nesse sentido. Eu o conheci quando Itaúna fez 100 anos, em 2001, apresentado pelo Dr. Guaracy. Infelizmente, Itaúna não dá muita importância para a sua história e, parece, as contendas político-partidárias impediram que ele participasse mais da vida itaunense. Mas ele foi uma grande personalidade na política, no mundo jurídico e na literatura. Sua biblioteca e muitos dos seus pertences foram doados à Universidade de Itaúna, precisam ser colocados à mostra, na entrada da biblioteca, para que os estudantes e a comunidade possam usufruir.

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