Crônica: A prefeitura está de muda. Tchau, querida!

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Sílvio Bernardes

A prefeitura está de mala e cuia dando adeus à praça da matriz, depois de tantos anos, tantas histórias. A praça central, que outrora assumiu o glamour que pertencera, num passado longínquo, à praça da estação, também encerra um capítulo de sua existência com a partida da prefeitura. Ainda lhe pertencem alguns bancos (financeiros), uns comércios de variedades e o combalido fórum, que num futuro próximo também estará de muda. Em pouco tempo a praça será apenas da igreja de Sant’Ana – a matriz, que lhe empresta o apelido carinhoso –, da fonte luminosa (nas noites que antecedem o Natal) e dos namorados (em noites de plenilúnio). Mas o footing, há muito em desuso, ficou apenas nas lembranças, como as do Bar Azul, do Cine Rex, do Automóvel Clube, do Restaurante Rodoviário, do Dico Pipoqueiro, dos engraxates de sapatos e do Agnelo da Caminhonete.

Mas, voltemos à prefeitura. O velho prédio da praça da matriz, que resistiu a tantas intempéries, segue o mesmo caminho da Câmara Municipal (outrora instalada de forma acanhada no seu terceiro andar), que se renovou para um moderno espaço numa (quase) inexistente Praça Cívica. Por muito tempo manteve-se sozinha a velha construção do poder executivo, como um casarão abandonado, cheio de  fantasmas e assombrações. Deixaram-lhe o Tucha, o Onofre Bacaiau, o Bar do Cilico, a Loja Guigos, o Bem-Bem, a Farmácia Nogueira, o Willian Leão e, até, o Misirico –   já que miséria pouca é bobagem.

Houve uma época em que a prefeitura servia de presídio temporário, para abrigar os arruaceiros que infernizavam os carnavais da praça da matriz. E fora depósito de equipamentos das obras púbicas na cidade e de instrumentos da Semana Santa da paróquia de Sant’Ana. O fundo do prédio, onde eu trabalhei por alguns anos, era o núcleo pobre da prefeitura, alguns até referiam-se maldosamente ao lugar como “favelinha” – as salas e os móveis viviam em petição de miséria.  Chovia lá fora, pingava lá dentro. Disputávamos à tapa um espaço com simpáticas baratas, irascíveis escorpiões e ratinhos assustados. Mas, por ali havia caixas eletrônicos do Banco do Brasil e da CEF, cheinhos de dinheiro. E uma vez por mês as filas de servidores em busca do seu pecúlio roçavam suas paredes carcomidas. Ah, e naquele fundo da prefeitura, instalaram certa feita um refeitório, uns espaços de soneca de depois do almoço e banheiros para os funcionários. Foi muito bacana da parte dos administradores. Os banheiros, então, foram adotados por servidores de vários setores e por quem mais chegasse. Até recentemente as privadinhas, sempre limpas e abastecidas de papel higiênico, eram utilizadas diariamente por centenas de pessoas, de todas as raças, idades, orientação sexual  e classes sociais, que frequentam a praça da Matriz, não necessariamente em busca dos serviços da prefeitura.

Agora a prefeitura tá lá, novinha em folha, no chamado Boulevard Lago Sul, ocupando parte do antigo sítio do “seu” Luiz da Dona Alda, pertinho do Camilote e da extinta Vila Marinho.

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