Operação Rejeito expõe esquema bilionário de corrupção na mineração em Minas Gerais 

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A Polícia Federal deflagrou esta semana a Operação Rejeito, que investiga um esquema bilionário de corrupção e lavagem de dinheiro no setor da mineração em Minas Gerais. As denúncias apontam para a existência de uma rede estruturada de empresas de fachada, uso de “laranjas” e influência política para facilitar a liberação de licenças ambientais e negociar direitos minerários de alto valor econômico.

O inquérito é um desdobramento da Operação Poeira Vermelha, deflagrada em 2020, e identificou a continuidade das práticas ilícitas por parte de um grupo empresarial e político já investigado. À frente das negociações estavam nomes como Alan Cavalcante do Nascimento, João Alberto Paixão Lages e Helder Adriano de Freitas, apontados como líderes da organização criminosa.

Outro personagem de destaque é o delegado da Polícia Federal Rodrigo de Melo Teixeira, que, segundo a investigação, teria atuado de forma oculta como sócio de empresas ligadas ao esquema, usando familiares e aliados para movimentar contratos milionários. Documentos e mensagens analisados indicam sua participação direta em negociações envolvendo mineradoras e barragens sob risco de rompimento.

As empresas criadas pelo grupo se apresentavam como consultorias ambientais ou mineradoras, mas tinham como função principal obter licenças ambientais de forma irregular, negociar direitos de exploração e intermediar contratos milionários sem contrapartida financeira real.

Um dos exemplos citados pela Polícia Federal envolve a Topázio Imperial Mineração, cuja barragem em Ouro Preto foi classificada pela Agência Nacional de Mineração entre as mais arriscadas do país. Apesar disso, contratos foram estruturados para favorecer sociedades de propósito específico, em que os investigados recebiam percentuais significativos de lucros sem investir recursos próprios.

Outro caso é o da Brava Mineração, que recebeu, a título gratuito, direitos minerários avaliados em bilhões de reais. As negociações envolveram grandes grupos do setor, como a AVG e a Flapa Mineração — sendo esta última a responsável pela aquisição do ativo. Estimativas da perícia apontam que apenas uma dessas transações poderia gerar lucros superiores a R$ 200 milhões para os sócios.

As investigações também citam influência em órgãos públicos e uso indevido da estrutura da Polícia Federal para favorecer interesses privados. Há registros de tentativas de direcionar nomeações estratégicas em Minas Gerais, além de operações policiais supostamente utilizadas como forma de pressionar concorrentes comerciais.

No âmbito das sociedades criadas, aparecem ainda nomes de empresários, advogados e agentes públicos ligados à Agência Nacional de Mineração, cujos servidores também são investigados por facilitar a tramitação de processos.

Entre os citados no relatório está o vice-prefeito de Itaúna, Hidelbrando Canabrava Rodrigues Neto (PL), mencionado como sócio formal em uma das empresas do grupo e interlocutor técnico em tratativas comerciais.

O relatório da PF afirma que o vice-prefeito teria “notório papel como facilitador jurídico e técnico nas parcerias com empresas e trânsito com órgãos públicos estaduais, além de sua atuação na prestação de contas e estruturação financeira das transações”.

Ainda segundo os investigadores, a experiência anterior de Hidelbrando Neto em cargos ligados ao meio ambiente no Estado — como ex-secretário jurídico da Secretaria de Meio Ambiente de Minas — reforçaria a posição dele como figura de confiança do grupo.

Além da prisão preventiva, a Polícia Federal também pediu o bloqueio de bens do político: um lote em Itaúna, três casas em Prudente de Morais e a apreensão de uma caminhonete. Antes da operação explodir, o político postou um stories informando que estaria viajando, mas não mencionou para onde. Desde então, ele ainda não foi encontrado.


Prefeito exonera vice do cargo de Secretário de Urbanismo e Meio Ambiente

Diante da repercussão do caso, a administração municipal anunciou a exoneração de Hidelbrando do cargo de secretário de Urbanismo e Meio Ambiente, função que ele também acumulava na gestão local. Em nota oficial, a administração destacou que os fatos investigados são de natureza pessoal e não têm relação direta com o exercício do cargo público, mas reforçou o compromisso com a ética, a transparência e a integridade administrativa.

“A Prefeitura Municipal de Itaúna vem a público esclarecer, diante das recentes notícias veiculadas na mídia envolvendo o nome do vice-prefeito e Secretário Municipal de Meio Ambiente, Sr. Hidelbrando Canabrava Rodrigues Neto, que os fatos noticiados não guardam qualquer relação com o exercício de suas funções públicas municipais.

Trata-se de investigação de caráter pessoal, alheia à administração pública. Entretanto, em respeito ao compromisso da atual gestão com a ética, a transparência e o zelo pela coisa pública, a Prefeitura informa que o Sr. Hidelbrando Neto foi exonerado de suas funções à frente da Secretaria de Meio Ambiente, até que todas as circunstâncias sejam devidamente esclarecidas.

Ressaltamos que o momento atual corresponde a uma fase investigativa, sem qualquer condenação ou decisão judicial definitiva. O Sr. Hidelbrando Neto, como qualquer cidadão, tem garantido o direito constitucional à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.

A gestão municipal segue firme em seu compromisso com a integridade institucional e a confiança da população itaunense, reforçando que eventuais condutas individuais não refletem a postura nem os princípios que norteiam esta administração.”

A investigação segue sob sigilo parcial e deve resultar em novas denúncias do Ministério Público Federal. Enquanto isso, as empresas ligadas aos investigados tiveram as atividades suspensas e bens bloqueados por decisão judicial.