APAE anuncia ampliação e meta de se tornar Centro Especializado em Reabilitação 

0
2404

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Itaúna inicia um novo capítulo em sua história. Com uma demanda crescente de atendimentos — especialmente de pessoas com autismo, deficiência intelectual e múltipla, a instituição anunciou um projeto de ampliação física e institucional. A proposta vai além da construção de um novo prédio: ela representa uma virada estratégica no modelo de assistência oferecido, com mais especialidades, novos profissionais, mais de 50 mil atendimentos adicionais previstos e a inclusão da deficiência física como nova modalidade. 

A expansão se fundamenta em três pilares: garantir qualidade e dignidade nos atendimentos, fortalecer a sustentabilidade institucional e conquistar a habilitação como Centro Especializado em Reabilitação (CER), o que permitirá à APAE acessar novos recursos e ampliar o alcance social de seus serviços. 

Hoje, a APAE de Itaúna atende cerca de 460 usuários por mês, com mais de 2.900 atendimentos mensais nos eixos da saúde, educação e assistência social. O crescimento é motivado por uma demanda reprimida significativa, especialmente nas áreas de fonoaudiologia e terapia ocupacional, com filas de espera crescentes. Apenas no atendimento a pessoas com autismo, mais de 200 usuários estão em acompanhamento contínuo. 

Com a nova fase, a meta é realizar 52.800 atendimentos em dois anos, aumentando a média mensal em 2.200 procedimentos. Entre as especialidades que serão reforçadas ou implantadas estão: psiquiatria, ortopedia, enfermagem, nutrição, assistência social, fisioterapia, pedagogia e oficinas terapêuticas como musicoterapia e arteterapia. 

Nova sede e reestruturação dos espaços

A construção do novo prédio da APAE será possível graças a uma parceria firmada com o Ministério Público do Trabalho, em decorrência do processo de reparação da tragédia de Brumadinho. A instituição teve projeto aprovado pelo Comitê Gestor dos Recursos da Reparação — formado pelo MPT, Justiça do Trabalho, Defensoria Pública da União e AVABRUM —, a partir da credibilidade e da transparência demonstradas pela APAE de Itaúna ao longo dos anos. Os recursos são provenientes de um processo judicial da 5ª Vara do Trabalho de Betim. 

O novo prédio contará com seis salas de atendimento, setor administrativo e uma Casa de Apoio à Família. Com a transferência do setor administrativo para essa nova estrutura, o atual prédio da APAE poderá ser reorganizado, com a ampliação dos serviços e a implantação da modalidade de reabilitação física — que será integrada à rotina da instituição pela primeira vez. 

Mais especialidades

Através do reforço técnico e financeiro do projeto aprovado no Programa Nacional de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência, a APAE poderá contratar 13 novos profissionais, entre eles psiquiatra, ortopedista, enfermeiro, assistente social, fisioterapeutas, psicólogos e pedagogos. 

A inclusão da deficiência física trará um impacto decisivo para o serviço ofertado pela APAE de Itaúna. A partir de 2025, a instituição passará a atender também pessoas com paralisia cerebral, sequelas de AVC, doenças neuromusculares, amputações, escolioses graves, mielomeningocele e outras condições ortopédicas que geram impacto funcional. 

Além disso, serão contemplados usuários de cadeiras de rodas, próteses, órteses, andadores ou aqueles que enfrentam dor crônica incapacitante. A triagem e o encaminhamento desses casos continuarão seguindo os fluxos do Sistema Único de Saúde (SUS), com regulação realizada pela Junta Reguladora Municipal em articulação com a Secretaria Municipal de Saúde. 

Habilitação do Centro Especializado em Reabilitação é a meta da instituição

Em entrevista ao Jornal S’Passo, a Superintendente da APAE, Geórgia Stefânia Duarte Chaves Mendonça, revelou que a ampliação nasceu da necessidade urgente de garantir mais qualidade, dignidade e sustentabilidade ao atendimento prestado pela APAE.  

Segundo ela, a entidade atende hoje um volume altíssimo de pessoas com deficiência só no autismo, “são mais de 200 usuários com diagnóstico fechado — e temos um número expressivo de pessoas aguardando em fila por vagas em fonoaudiologia e terapia ocupacional”.  

“Apesar de prestarmos um serviço continuado e de alta complexidade, enfrentamos um cenário de grave subfinanciamento, com valores da saúde pública congelados há mais de uma década. A motivação, portanto, é clara: atender mais e melhor, com uma estrutura física adequada, acolhendo também as famílias, ampliando as modalidades atendidas e caminhando para um novo patamar institucional”, afirmou.

Parcerias e recursos 

Segundo a gestora, a ampliação só se tornou possível graças a uma articulação com órgãos de controle e programas federais. “A parceria surgiu a partir da credibilidade da APAE, do histórico de boa gestão e da confiança construída com a sociedade. O projeto de ampliação da sede foi elaborado pela equipe da APAE com assessoria da empresa Kaphta, que realiza planejamento e gestão de processos de mobilização de recursos para instituições filantrópicas de saúde”. 

“Esse projeto prevê a contratação de novos profissionais da saúde e modernização de equipamentos. Com ele, a APAE passará a atender também pessoas com deficiência física, além da deficiência intelectual e/ou múltipla e do autismo, já contemplados. A execução está prevista para novembro de 2025 e prepara a APAE para pleitear a habilitação como CER II”. 

Caminho para se tornar CER 

Sobre a habilitação, Geórgia destaca que a decisão de buscar a habilitação como Centro Especializado em Reabilitação foi tomada após uma audiência com o Ministério da Saúde. “Recebemos orientação para avançar nesse processo e o reconhecimento permitirá, entre outros avanços, a inclusão oficial dos atendimentos a pessoas com autismo no sistema de financiamento do SUS, com um acréscimo de 20% nos repasses para essa população”. 

O próximo passo, segundo ela, depende de pactuação local. “Já sinalizamos à Secretaria Municipal de Saúde nossa intenção e a necessidade de apoio técnico e político para viabilizar essa habilitação. Agora vamos oficializar o pedido ao município, com os documentos técnicos e administrativos, consolidar a pactuação local e estadual e, então, protocolar a solicitação junto ao Ministério da Saúde”. 

Nova sede e Casa de Apoio

A obra da nova sede também prevê um espaço voltado para familiares. A Casa de Apoio à Família será instalada na própria sede da APAE, trazendo mais conforto, privacidade e acolhimento para os acompanhantes.  

“Hoje, esse serviço já existe, mas funciona em um imóvel alugado. A maioria dos usuários da Casa de Apoio são mães e responsáveis por alunos da escola especial ou do Centro-Dia. Nossa prioridade é garantir um ambiente planejado para descanso e convivência, mas que também possa abrigar oficinas, grupos terapêuticos e rodas de conversa. A família também é público da APAE. Cuidar de quem cuida é essencial para promover inclusão e reabilitação”. 

Atualmente, programas como “Movimente-se” (promoção da saúde), “Amparar e Orientar” (grupos terapêuticos) e ações de intervenção parental já são desenvolvidos e continuarão sendo fortalecidos. 

Ciência, pesquisa e inovação 

Para Geórgia, a expansão vai muito além da ampliação física, uma vez que a instituição está investindo em formação contínua da equipe, parcerias com instituições como a Uniapae/MG e pesquisas inovadoras. “Entre os nossos estudos estão a intervenção parental com base no Projeto IMPACT, o uso do canabidiol no tratamento do autismo e a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) para pessoas não verbais. Também estudamos incorporar tecnologia e inteligência artificial para apoiar a mobilidade, a comunicação e a autonomia dos usuários. Queremos romper barreiras por meio da ciência e da inovação”, explica. 

Impacto no atendimento 

Atualmente, a APAE realiza cerca de 2.900 atendimentos mensais. Com a ampliação e a nova equipe multiprofissional, a meta é chegar a 5 mil atendimentos por mês, distribuídos entre enfermagem, nutrição, assistência social, psiquiatria, ortopedia, psicologia, fisioterapia, pedagogia e oficinas terapêuticas. “Esse crescimento significa reduzir filas de espera e garantir um cuidado mais completo, resolutivo e humanizado”. 

Para isso, serão contratados 13 novos profissionais, incluindo ortopedista, enfermeiro e psiquiatra, além de ampliar a carga de especialidades já existentes. “Tudo será feito com transparência, por meio de processos seletivos éticos e rigorosos, garantindo qualidade técnica e isonomia”.