O Jornal S’Passo tem recebido, de forma recorrente, uma série de denúncias que apontam para o agravamento da situação das pessoas em situação de rua no município. O que antes era tratado como um problema social pontual passou a ser encarado por moradores e comerciantes como um cenário insustentável, marcado pela ausência de políticas públicas eficazes, insegurança e episódios constantes de desrespeito ao espaço coletivo.
Conforme apurado pela reportagem do Jornal S’Passo, existem em média 40 pessoas em situação de rua catalogadas na cidade, mas o número pode ser maior, se consideradas as pessoas em situação de rua ainda não abordadas, ou tipificadas apenas como dependentes químicos, que também vivem na rua.
Entre as queixas mais frequentes estão a ocupação indiscriminada de portas, marquises de comércios, imóveis públicos e particulares, além de flagrantes registrados por câmeras de monitoramento que mostram pessoas defecando e urinando em vias públicas, em plena luz do dia. Também são recorrentes relatos de invasões a imóveis desocupados, muitos deles localizados na região central.
Nesta semana, a reportagem recebeu o relato de um servidor público que denunciou a invasão de um imóvel pertencente à sua família, atualmente desocupado. Segundo ele, pessoas em situação de rua e usuários de drogas passaram a ocupar o local, onde dormem, vivem e fazem uso de entorpecentes.
De acordo com o proprietário, a Polícia Militar já foi acionada diversas vezes, mas, ao perceberem a aproximação da viatura, os ocupantes fogem, retornando pouco tempo depois. “O problema social aumentou muito na cidade”, afirmou, pedindo para não ser identificado.
Outro episódio que causou revolta foi registrado na Rua Josias Machado. Um homem em situação de rua foi flagrado realizando necessidades fisiológicas em um passeio público, em horário de grande circulação de pessoas. Testemunhas relataram que não foi um caso isolado: pelo menos três ocorrências semelhantes já foram registradas na região central e outra no bairro Aeroporto.
Moradores afirmam que cenas como essa têm se tornado comuns e refletem o abandono de áreas estratégicas da cidade. Além do constrangimento, a prática representa risco à saúde pública e afronta normas municipais de conservação dos espaços urbanos, podendo também ser enquadrada como ato obsceno, conforme prevê a legislação penal.
“É revoltante ver esse tipo de situação em uma rua movimentada. Falta fiscalização, mas principalmente falta ação social efetiva”, desabafou um comerciante que preferiu não se identificar.
A terceira denúncia veio do vereador Rosse Andrade, que utilizou as redes sociais para mostrar a situação da guarita localizada no Morro do Bonfim. O espaço, que deveria ser utilizado por vigilância patrimonial, foi invadido e transformado em moradia por pessoas em situação de rua e usuários de drogas. No local, o parlamentar mostrou colchões, grades de churrasco, fogão improvisado e varais improvisados com arames.
Segundo o vereador, a denúncia partiu de um eleitor que frequenta o morro para momentos de oração. No vídeo, Rosse cobra providências imediatas do setor de patrimônio da Prefeitura, com notificação e desocupação do imóvel público.
Outra queixa encaminhada à redação veio de uma moradora das proximidades do Poliesportivo do JK, no bairro Cerqueira Lima. De acordo com ela, pessoas em situação de rua têm utilizado a marquise do espaço para dormir, além de urinar e deixar dejetos no local, gerando mau cheiro e insegurança para quem circula pela região.
Um episódio ainda mais grave foi narrado por uma professora em um grupo de WhatsApp. Segundo ela, ao passar por uma pessoa com aparência de morador de rua, acabou sendo agredida com um tapa no rosto após tossir. Comerciantes da região relataram que o indivíduo apresenta sinais de transtornos mentais e circula frequentemente pelo centro da cidade. A vítima afirmou que, por medo, não acionou a Polícia Militar e deixou o local imediatamente.
Em plena praça
A presença crescente de pessoas em situação de rua dormindo em meio à vegetação da Praça Dr. Augusto Gonçalves também tem preocupado quem passa pela região central. De acordo com relatos de frequentadores, a Praça tem se tornado ponto de acampamento improvisado, com papéis, lonas, colchas, restos de comida e marmitex espalhados entre os arbustos e canteiros. Outra reclamação é que essas mesmas pessoas têm sujado frequentemente a fonte luminosa, defecando no local.
Também comerciantes da Avenida Jove Soares denunciaram a permanência constante de pessoas em situação de rua sob a marquise do antigo bar Culture. Segundo os empresários, o local tem sido utilizado para dormir, além de servir como ponto para consumo de alimentos e drogas, com urina, fezes e restos espalhados pelo chão. “Isso afasta clientes e compromete até a venda de produtos alimentícios”, relatou um comerciante.
Indignação nas redes sociais
Nas redes sociais, o clima é de revolta. A cidadã Ana Beghini fez um comentário que repercutiu amplamente ao criticar a condução do problema pelo poder público. Em sua publicação, ela cobra providências imediatas e questiona a ausência de políticas eficazes para acolhimento e reintegração das pessoas em situação de rua, apontando o que considera falta de planejamento, pesquisa e gestão por parte da administração municipal.
“A população já não aguenta mais esses moradores de rua na cidade. Tomem uma providência para mandá-los para a cidade deles. Se não conseguem um programa para tirá-los da rua, façam uma pesquisa em diversas cidades que não deixam esses indivíduos soltos. Tempo e pessoal têm de sobra para pesquisar. Falta boa vontade e competência para tal situação”, criticou.
Além das manifestações individuais, as críticas convergem para dois pontos principais: o crescimento do problema e a inexistência de uma estrutura adequada de acolhimento, voltado ao atendimento humanizado, acompanhamento psicossocial e reinserção social dessa população.
Enquanto denúncias se acumulam e moradores relatam medo, constrangimento e prejuízos, a sensação que fica é de que o município segue sem respostas concretas para uma crise que já ultrapassou os limites do tolerável e exige ações urgentes, integradas e efetivas.







