DO OUTRO LADO DA PORTA

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@toniramosgoncalves*

Num primeiro momento, vemos um senhor calvo, de barba branca, que sai do banheiro com uma tosse seca e insistente. O sol invade a sala e desenha uma linha diagonal num laranja intenso, e a brisa fria do início da noite o faz fechar o agasalho. Ele avança com passos lentos e vê pela janela os últimos raios do sol refletindo na cruz no alto da torre da igreja. Era o centésimo dia de isolamento social desde que a quarentena foi decretada por causa da COVID-19.

Ele sabia que lá fora havia um vírus mortal. Não era apenas uma simples “gripezinha”. De um dia para o outro, o mundo acordou numa era pré-apocalíptica. Não foi uma guerra nuclear, nem uma invasão alienígena, muito menos um meteoro gigante — como aquele que extinguiu os dinossauros. Era um vírus invisível a olho nu, cuja única “intenção” parecia ser reproduzir-se, e que veio mostrar a fragilidade e a pequenez da humanidade.

Caminhou até a porta e olhou pelo visor. Ninguém.

Depois, aproximou o ouvido esquerdo à porta e tentou ouvir barulhos distantes: vozes nos corredores, latidos, tosses, a TV ligada. Nada.

Qualquer coisa que viesse de fora era uma ameaça.

Por fim, certificou-se de que a porta continuava trancada.

Sobre a mesa, o celular vibrou. Aproximou-se, levou o aparelho ao rosto, apertou os olhos e leu a mensagem. Era uma mensagem do filho, que perguntava se ele estava bem e ordenava que não saísse de casa, que pedisse tudo de que precisasse por delivery. Pensou em responder, mas desistiu. Recado tardio, pois no fim de semana teve que sair por alguns minutos e agora se arrepende disso. Lembrou que nos primeiros dias de isolamento social, seu filho ligava quase todos os dias por videochamada. Agora, só chegavam mensagens e nada mais.

Dirigiu-se à sua poltrona, sentou-se e ligou a televisão. No noticiário das 18 horas havia uma reprise da bênção do Papa Francisco no pátio vazio da Basílica de São Pedro, diante do crucifixo de São Marcelo — o Cristo Milagroso. Caía uma chuva fina e o céu estava escuro e sombrio. Naquele dia, a Itália havia atingido a marca de nove mil mortes.

Nas notícias seguintes, percebe-se o caos social, político e econômico: sobrecarga no sistema de saúde, com hospitais e leitos de UTI lotados; desvios de verba na compra de respiradores; negação da ciência e prescrição de medicamentos sem comprovação científica; demissão de ministros da Saúde; descumprimento do isolamento social por descrença na existência do novo coronavírus; e teorias conspiratórias de que a China queria dominar o mundo. O que era mais importante: CPFs ou CNPJs? Tudo muito irreal. Desligou a televisão.

Percebeu que a solidão e o silêncio não eram tão ruins assim. Pensou que se não fosse um velho tão aborrecido e insuportável, ainda poderia ter a companhia da esposa. Mas, poucos dias antes da pandemia, ela fez as malas e foi embora — não o aguentava mais. No dia anterior, ela ligou e perguntou como estava a sua saúde. Ele respondeu que se sentia bem, embora estivesse mais irritado e chato do que antes, e que sentia muita saudade dela.

Foi então que teve uma intensa crise de tosse. Colocou a mão na testa. Estava febril e tudo rodou ao seu redor. Respirando com dificuldade, procurou alcançar o celular. Tropeçou e caiu. Precisava ligar para o filho e avisá-lo de que algo estava errado com ele. Mas ficou ali mesmo, estendido no chão. Talvez só precisasse repousar — quem sabe dormir um pouco, só um pouquinho.

Lá fora a noite e um vírus. Um vírus que…

* Toni Ramos Gonçalves (Não é o Global)

Professor, Historiador, Escritor, Editor, ex-presidente e um dos fundadores da Academia Itaunense de Letras – AILE.