DOR E CLAMOR POR JUSTIÇA  

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Mãe de Rebeca rompe o silêncio e faz alerta contra a violência de gênero 

A morte da advogada Rebeca Lima Freire, de 37 anos, assassinada a tiros na entrada do prédio onde morava, continua causando comoção e revolta na cidade. O autor dos disparos, o ex-companheiro Webert Vieira Miranda, de 34 anos, tirou a própria vida logo após o crime. 

Em entrevista, a mãe da vítima, Ana Paula Lima Freire, falou sobre a dor da perda e fez um apelo contundente contra o feminicídio. Ana Paula descreve a filha como uma mulher dedicada aos estudos e à profissão. “A Rebeca é advogada, trabalhou muitos anos em um escritório de Belo Horizonte, e agora estava estudando para concurso. Tem cinco meses que ela veio morar comigo aqui em Itaúna. Eu fui buscar ela porque o relacionamento estava conturbado.” 

Segundo a mãe, Rebeca viveu 12 anos com o ex-companheiro, em Belo Horizonte, no bairro Castelo. “Eles moravam juntos, mas infelizmente ele começou a se envolver com jogos de aplicativos. Em seis meses perdeu mais de R$100 mil e ficou desorientado.” 

Ela conta que decidiu trazer a filha para Itaúna após um período difícil. “Ele estava internado e ela sozinha no apartamento no qual morava. Trouxe Rebeca para Itaúna para que ela tivesse amor, estrutura e alicerce de mãe. Mas ele não deixou ela em paz.” 

De acordo com Ana Paula, mesmo após a separação, o ex-companheiro continuava a procurá-la. “Ele vinha aqui, sufocava ela e tinha muito ciúme. Ela, aos poucos foi melhorando, fazendo tratamento com psicólogo e psiquiatra e voltando a ser feliz. E isso incomodou ele.” 

A mãe afirma que as ameaças passaram a ocorrer pelas redes sociais. “Ele começou a ameaçar pelo Instagram e de várias maneiras. Ela bloqueava, mas não adiantava. Ela gostava muito dele e não acreditava que ele fosse fazer maldade.” 

No dia do crime, segundo o relato, o homem teria comprado uma arma e feito uso de drogas antes de ir ao encontro de Rebeca. “Ele ficou horas na porta do prédio esperando ela chegar. Quando ela entrou com um rapaz que tinha acabado de conhecer, ele empurrou os dois para dentro do prédio, começou a gritar, tentou enforcar ela. Ela reagiu. Foi quando ele deu um tiro na cabeça dela.” 

Em meio às lágrimas, Ana Paula diz encontrar um pequeno consolo na rapidez da morte. “Eu agradeço a Deus que foi instantânea, que ela não sofreu.” 

Ela também fez questão de agradecer às forças de segurança. “A polícia estava perto, chegou rápido. Só tenho a agradecer à Polícia Militar e à Polícia Civil de Itaúna. Foram muito respeitosos com a minha filha, preservaram os corpos e evitaram fotos.” 

Rebeca era voluntária da ONG Balaio de Gato, em Belo Horizonte e, segundo a mãe “a vida dela era cuidar dos animais e estudar. Era uma menina pura, boa, bonita por fora e por dentro.” 

Ana Paula desabafou um apelo público. “Eu queria falar principalmente sobre o feminicídio. Não é uma luta das mulheres contra os homens. Eu tive um pai maravilhoso, um marido maravilhoso. É uma luta contra o machismo, contra o homem que não aceita perder a mulher.” 

Ela lamenta que a filha tenha registrado boletim de ocorrência, mas não tenha solicitado medida protetiva. “Se ela tivesse feito, talvez ele estivesse preso. As mulheres têm que denunciar. Muitas não têm coragem. Minha filha não teve.” 

Abalada, ela relata estar sob cuidados médicos. “Estou medicada, procurando profissionais da saúde. Sozinha a gente não dá conta. É agarrar em Deus, procurar ajuda e apoio psicológico. A minha dor não vai passar. A saudade vai ficar para o resto da vida.” 

Por fim, deixa um pedido que ecoa como um grito coletivo: “A dor que eu estou sentindo, eu não quero que mãe nenhuma passe. A gente tem que lutar para não ver mais mulheres mortas do jeito que está acontecendo.”