Com a finalização do Dossiê do Conjunto Paisagístico e Arquitetônico Gruta Nossa Senhora de Itaúna, a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo – consolida um marco na preservação da fé e da memória coletiva local. A gruta, que nasceu de um episódio místico em 1955 e se tornou um dos maiores símbolos de religiosidade da cidade, é agora reconhecida oficialmente como patrimônio cultural tombado, com registro histórico, arquitetônico e espiritual.
O trabalho é fruto de anos de pesquisa dos relatos orais, documentos históricos, registros da imprensa e principalmente nos diários do farmacêutico Ovídio Alves de Souza, figura central da devoção que tomou forma ali há quase 70 anos. “Proteger o Conjunto Paisagístico e Arquitetônico da Gruta Nossa Senhora de Itaúna é um ato de compromisso com o passado, de preservação da memória coletiva e de garantia para o futuro das próximas gerações.”
A aparição de 1955
Foi no dia 27 de julho de 1955 que três crianças – Eduardo Vasconcelos, José Rita e Antônio Nunes – afirmaram ter visto a imagem da Virgem Maria sobre um cupim no que então era a antiga Vila Mozart, hoje bairro de Lourdes. A notícia se espalhou rapidamente pela cidade, mobilizando fiéis e despertando a curiosidade de muitos.
“Eu tive a graça de, quando criança, chegando aqui por volta de oito horas da manhã, apareceu Nossa Senhora, Virgem Maria. Nos apareceu para três crianças, toda bonita, descendo assim do céu, como se fosse em uma nuvem brilhante, em um raio de luz, de uma beleza sem limite…”, relatou emocionado Eduardo Vasconcelos de Morais em relato no ano passado, durante a confecção do dossiê.
Segundo ele, a imagem que apareceu aos meninos tinha “pele morena clara, rosto comprido e cheio, cabelos pretos, mãos e dedos compridos, um vestido branco brilhante e, sobre o vestido, um manto azul. Na mão direita, sobre o peito, um terço; uma cruz resplandecente, diferente, muito brilhante. Na mão esquerda, uma flâmula transparente, em formato de triângulo e com uma mensagem.”
O diário do senhor Ovídio: do ceticismo à devoção
O farmacêutico Ovídio Alves de Souza, cético no início, descreveu em seu diário a transformação que viveu. Ao saber das aparições, duvidou. “Disse ao Dr. Valeriano Rodrigues que duvidava muito que estivesse aparecendo alguma Santa. Acreditei que o povo queria era construir uma igreja no bairro.”
Mas tudo mudou no dia 2 de agosto de 1955. “Encostei-me numa árvore, a uns 12 metros do cupim, e observei o povo rezar. Uns com fé, outros duvidando. Então, veio em meu pensamento: ‘Ó Virgem Maria Santíssima, concedei-me uma graça…’ Repeti isso três vezes. Poucos segundos depois, vi surgir diante de mim, do lado direito do cupim, a Virgem Maria.”
A partir de então, ele passou a ir ao local todos os dias e testemunhou múltiplas aparições. Em uma delas, no dia 27 de novembro de 1955, escreveu: “A Virgem Maria me apareceu com uma beleza encantadora… vestida de branco, com manto azul, terço sobre o peito e uma flâmula onde se lia: ‘JESUS CHRISTO ETERNO DEUS. O PAGANISMO AMEAÇA O MUNDO. ERGUEI O ALTAR. ORAI COM FÉ E VÓS VEREIS O MILAGRE DA CONVERSÃO.’”
A força da comunidade na construção da Gruta e o “Terço dos Homens”, um legado de fé
Entre 1956 e 1957, com apoio da população e do padre José Neto, o terreno foi comprado, limpo com a ajuda do Tiro de Guerra e transformado em espaço de oração. A capela foi erguida em 1983. A imagem oficial de Nossa Senhora de Itaúna foi criada apenas em 2002, pelo artista plástico Antônio Alvimar Menezes.
Já em 2006, surgia na Gruta o grupo Terço dos Homens, que transformaria o local em ponto de peregrinação ainda mais intenso. “Começamos com umas 80 pessoas. Em pouco tempo, tínhamos 1.500 homens rezando na Gruta. Aquele espaço ficava completamente cheio, tinha gente do lado de fora. Depois, levamos o terço para mais de 25 cidades da região. Em 2009, fizemos nossa primeira Romaria para Aparecida. Começamos com 600 homens… e já tivemos até 100 mil participantes em anos mais recentes.”, relata Márcio Helênio de Faria, coordenador do Terço dos Homens.
Mesmo sem confirmação oficial da Igreja sobre as aparições, Márcio é categórico: “Com tanto relato, tanta devoção, tantos milagres e graças recebidas… não há como negar a presença de Nossa Senhora naquele lugar.”
Rinaldo Pereira Paulino, outro líder espiritual do movimento, reforça que “o maior milagre que eu vi na Gruta não foi físico. Foi a cura da alma. A conversão. O Terço dos Homens é a encarnação da própria mensagem da década de 50.” O religioso ainda faz um apelo: “Falta ainda mais divulgação. A Gruta é um lugar abençoado, onde quem for de coração aberto vai ter um encontro com Jesus.”
Gruta integrada ao projeto Trilha das Devoções
O reconhecimento da Gruta como patrimônio cultural também fortalece o projeto “Trilha das Devoções”, já em andamento na cidade. O circuito mapeia 71 templos religiosos e pontos de fé em todo o município, contemplando igrejas católicas, evangélicas, centros espíritas, terreiros de umbanda, templos dos Santos dos Últimos Dias e Salões do Reino das Testemunhas de Jeová.
O material promocional da trilha inclui mapas, sinalização padronizada, classificação por tipologia religiosa e informações turísticas e culturais. A proposta é fazer da fé um motor para o turismo sustentável e o fortalecimento da identidade local.
Patrimônio vivo, fé que se renova
O dossiê, agora finalizado e aprovado, é mais do que um documento: é a prova de que Itaúna valoriza sua história, suas raízes espirituais e o poder de transformação da fé. Com ele, a cidade ganha visibilidade, pontuação no ICMS Cultural, novos caminhos para o turismo e, sobretudo, um resgate simbólico de um dos locais mais tocantes de sua história. “Nossa Senhora tá aí. Tá presente aí para nós. Vem gente aqui de todos os lados, inclusive de outros países”, finalizou com simplicidade e fé o vidente Eduardo Vasconcelos, ainda em 2024.








