@toniramosgoncalves*
Sempre quis ter um BMW. E, toda vez que penso nisso, surge aquele anúncio, num outdoor ou no celular, que o algoritmo jura ser a minha cara: “Sua hora chegou”, “O carro de quem venceu na vida”. Bem… infelizmente, não venci. E aqui estou a caminho do trabalho, num Ford Ka da segunda geração, que range e bate quando roda.
Falo, sem nenhum pudor, que não venci na vida. Sou uma aberração no mundo dos palestrantes bem-sucedidos. Sou um homem que não chegou lá, mas que continua existindo com uma teimosia mirabolante, por assim dizer, poética.
Depois dos meus cinquenta anos, consegui meu diploma. Será que foi tarde? Apesar de ser escritor autodidata, acredito estar qualificado para longos debates nas reuniões da Sociedade dos Poetas Vivos, nas mesas de bar, e nada mais. Também me permito fazer revisões gramaticais gratuitas nos cartazes do bairro. Outro dia vi um “Floreça” — o que fizeram com o “S”?
Trabalho desde os onze anos de idade. Já trabalhei bastante na vida, nas piores condições possíveis, debaixo do sol quente, calejando as mãos nas enxadas, com aquela ilusão de que um dia chegaria a algum lugar. Escrevo textos que ninguém lê, como este aqui. Já troquei serviços por produtos de que precisava. O escambo ainda existe, acredite. Busco ser honesto no que faço. Hoje sou professor, com salário modesto, que dificilmente me permitirá, um dia, comprar o tal BMW.
Não vejo nenhuma escada que me faça subir na vida. O que vejo é uma escada rolante no sentido contrário: um monte de pessoas suadas e cansadas, buscando algo que jamais conseguiram alcançar. Já faz um tempo que caminho à margem da vida, pelo acostamento de nossa existência, sem beber café e sem tentar abraçar as mazelas do mundo pelas notícias que chegam aos meus olhos e ouvidos.
Moro de aluguel na periferia; o proprietário considera o imóvel uma mansão a cada renovação. A vizinhança está sempre metida em questões policiais, e há um vizinho que insiste em ouvir sertanejo desde as seis horas da manhã de um domingo. O que me faz continuar aqui é a proximidade com o trabalho e com o centro da cidade. No inverno, gela; no verão, sofro com o calor. Ao menos, resta o silêncio da noite.
Sim, eu tenho família: consigo montá-la como um LEGO fora da caixa nas datas comemorativas. Um filho ali, o outro acolá; tios e avós, nenhum (todos faleceram); três cães Shih Tzu; e uma esposa dedicada, a quem adoro implicar. Aos domingos, não faço churrasco — a picanha prometida não veio. Mas há carinho, afeto, preguiça e discussões sobre como surge tanta louça suja na pia.
Nunca fui promovido nos locais em que trabalhei, mas conquistei diversos direitos para os funcionários por onde passei. Sou testa de ferro. Como profissional autônomo — apesar de me considerar o melhor da minha profissão — sempre tive dificuldade de manter uma clientela fiel. Hoje, na escola em que sou professor, desfilo orgulhoso com meu nome, em fonte Arial, no crachá que me deram. Tenho recebido elogios pela dedicação. Até fui convidado para dar aulas de Projeto de Vida. Ao menos já é alguma coisa.
Nas redes sociais, tenho postado pouco. Aliás, queria morar neste mundo artificial, cheio de frases motivadoras e de vidas felizes, onde não parecem existir as mazelas da sociedade. Nunca vi tanta mentira.
Sou um cara que não empresta mais livros. Não insista. Gosto mais de animais do que de pessoas, por causa da energia boa. Tenho algumas medalhas e troféus que conquistei como atleta e como escritor. Sou daqueles que não conseguem dizer “não”, sempre disposto a ajudar. Acredito que seria muito útil no fim do mundo, talvez mais que um gerente administrativo.
Meus ternos não cabem mais em mim. Sei cuidar da casa e consigo cozinhar algo além do miojo. Não entendo — e não quero entender — de investimentos, mas ainda guardo moedas de um real num cofrinho.
E, se por acaso um dia você tropeçar em alguém como eu — alguém que não chegou lá — eu digo: talvez essa pessoa não tenha respostas ou soluções mágicas para os seus problemas, mas terá café, conselhos e, principalmente, tempo para ouvir o que você tem a dizer.
Nos dias de hoje, isso vale mais do que qualquer BMW.
* Toni Ramos Gonçalves (Não é o Global)
Professor, Historiador, Escritor, Editor, ex-presidente e um dos fundadores da Academia Itaunense de Letras – AILE.







