Apesar do pedido de falência da Marelli — uma das maiores fornecedoras globais de autopeças —, a unidade industrial localizada em Itaúna, continuará operando normalmente. A planta não pertence mais ao conglomerado envolvido na reestruturação financeira internacional e segue sob o controle da Plastic Components and Modules Automotive, com gestão independente e estratégia distinta do grupo que declarou insolvência.
A notícia da crise da Marelli, que acumula dívidas superiores a US$ 5 bilhões, acendeu um alerta na cadeia automotiva global. A empresa, formada em 2019 após a fusão da japonesa Calsonic Kansei com a antiga divisão de autopeças da Fiat Chrysler (Magneti Marelli), enfrenta anos de dificuldades agravadas pela pandemia, pela desaceleração da eletrificação veicular e, mais recentemente, por novas tarifas comerciais dos Estados Unidos.
A falência, porém, não impacta a operação da fábrica instalada em Itaúna, que ficou de fora da transação bilionária de venda da Magneti Marelli à Calsonic Kansei. Por razões estratégicas, a planta foi mantida sob a órbita da Fiat Chrysler Automobiles, embora com gestão separada. Em vez de integrar a nova Marelli global, a unidade passou a operar como parte da PCMA, companhia especializada na produção de componentes plásticos automotivos com atuação na Itália, Polônia, Turquia e Brasil.
Pouco divulgada na época, a separação da unidade itaunense foi considerada crucial por executivos da FCA para garantir a continuidade do fornecimento de peças estratégicas às marcas do grupo, como Fiat e Jeep. A PCMA nasceu oficialmente em 2008, como sucessora da Ergom Automotive, também antiga operadora do complexo fabril em Itaúna.
Colapso global da Marelli
A Marelli, sob o controle do fundo americano KKR, solicitou proteção contra falência diante do colapso financeiro. O CEO da empresa, David Slump, atribuiu o colapso ao impacto das tarifas comerciais impostas durante o governo Trump, à escassez de matérias-primas pós-pandemia e à desaceleração da demanda por carros elétricos, que levou montadoras como Ford e GM a revisarem encomendas.
A reestruturação da Marelli prevê a conversão de parte das dívidas em participação acionária e a injeção de mais de US$ 1 bilhão em novos recursos, com apoio de 80% dos credores seniores. A empresa emprega cerca de 60 mil pessoas no mundo e está presente em mais de 170 fábricas e centros de pesquisa.
No Brasil, a Marelli opera com o nome Marelli Cofap em estados como São Paulo e Minas Gerais (Contagem e Lavras), utilizando as marcas Cofap e Magneti Marelli para o mercado de reposição.
Continuidade assegurada
A fábrica de Itaúna, por sua vez, segue produzindo normalmente. Desde que foi repassada à PCMA, passou a atuar com autonomia em relação ao grupo Marelli. A manutenção da unidade fora do negócio de venda demonstrou a relevância estratégica da planta para a cadeia de suprimentos da Fiat Chrysler, que posteriormente se fundiu com o grupo PSA, dando origem à Stellantis.
A expectativa é de que a crise da Marelli não interfira nas atividades industriais ou no quadro de funcionários da PCMA em Itaúna, tampouco nos contratos vigentes com montadoras brasileiras. Com isso, o município segue resguardado dos impactos diretos da falência, mesmo em um cenário global de alta volatilidade na indústria automotiva.







