Galeria Ahmés de Paula Machado é reaberta e volta a integrar circuito das artes da cidade 

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Um espaço que faz parte da história cultural de Itaúna volta a ganhar vida. A Galeria Ahmés de Paula Machado, instalada no segundo andar do Espaço Cultural Adelino Pereira Quadros, será reinaugurada no próximo dia 19, marcando mais um capítulo de sua trajetória iniciada há quase quatro décadas. 

A galeria foi inaugurada originalmente em 22 de dezembro de 1988, durante a gestão do então prefeito Francisco Ramalho, com a proposta de criar um ambiente permanente voltado à exposição de artes visuais no município. Anos depois, em 26 de agosto de 1996, no governo de Hidelbrando Canabrava Rodrigues, o espaço passou pela primeira reinauguração, reafirmando o compromisso da cidade com a valorização da produção artística local. 

Com o passar do tempo, no entanto, a galeria acabou perdendo sua função original. Em determinados períodos, o espaço deixou de receber exposições e foi utilizado para outras finalidades administrativas e culturais, o que acabou afastando artistas e inviabilizando a realização de mostras regulares. 

Agora, após um processo de reorganização do ambiente e de retomada da proposta expositiva, o local volta a ser oficialmente destinado às artes visuais. A nova reabertura será celebrada com a exposição coletiva “Entre Gestos e Silêncios”, que reúne 18 artistas da cidade e simboliza o reencontro entre a galeria, os criadores e o público itaunense. 

A mostra tem curadoria da artista Denise Souto, que também é responsável pela organização da exposição. Em entrevista, ela explicou que sua aproximação com a produção de exposições surgiu de maneira natural a partir da própria experiência artística. 

“Essa ideia surgiu porque comecei a pintar e, de repente, apareceu essa vontade de organizar exposições. Fiz uma mostra no ano passado e gostei muito desse trabalho de ajudar outros artistas a expor. Muitas pessoas começaram a me pedir para organizar, e eu acabei entrando nesse ramo também”, conta. 

Segundo Denise, a experiência anterior aconteceu em um espaço alternativo da cidade, mas organizar uma exposição dentro de uma galeria traz novos desafios e responsabilidades. 

“Lá foi diferente, porque o espaço era cedido e eu organizei tudo sozinha, buscando obras nas casas dos artistas e depois devolvendo. Aqui na galeria já é outra realidade. Tivemos que pensar em como montar as obras, se os quadros ficariam suspensos ou não. Ainda estamos estruturando algumas coisas, mas todos os artistas estão ajudando, e isso torna o trabalho coletivo”, relata. 

A exposição reúne 18 artistas, cada um com cerca de duas obras, totalizando mais de trinta trabalhos expostos. “Serão 18 artistas comigo participando da exposição. A gente pensou em cerca de duas obras por pessoa porque o espaço não é muito grande, então devemos ter mais de 34 trabalhos expostos. Espero que toda a comunidade esteja presente na abertura, no dia 19 de março, às cinco da tarde”, convida a curadora. 

“Espaço recuperado e de volta à sua função original” 

Entre os artistas participantes está Levy Vargas, que possui uma trajetória consolidada nas artes visuais. Ele relembra que sua relação com as exposições coletivas em Itaúna começou ainda na juventude. “Eu atuo nas artes plásticas desde os meus 18 anos, desde 1981. Minha primeira participação numa mostra coletiva foi na Semana de Arte de Itaúna, promovida pelo Departamento de Cultura da época”, recorda. 

Para o artista, a reabertura da galeria representa um momento de resgate para a produção artística local. “É com imensa satisfação que vejo esse espaço sendo recuperado para a sua função original, que é expor a produção das artes visuais da cidade e de outros lugares. Ficamos com essa galeria fechada por pelo menos uns dez anos. Houve um desvio de função, o que considero absurdo, transformando a galeria em salas de aula que ainda eram subutilizadas”, afirma. 

Ele acredita que o novo momento pode fortalecer o segmento artístico no município. “Agora, fico muito esperançoso de que teremos um novo momento para as artes visuais em Itaúna, com espaço adequado para mostrar nosso trabalho e também para formar público”, destaca. 

Levy também foi convidado para colaborar diretamente na montagem da exposição. “Esta semana já começamos a receber as obras e iniciar a montagem. Fico muito honrado por estar à frente desse trabalho. Já atuei como curador de várias mostras na cidade e organizei exposições coletivas de alunos que demonstravam talento. É uma alegria ver esse segmento recebendo novamente atenção”, disse. 

Outro ponto destacado por ele é a importância de aproximar estudantes das artes visuais. “Queremos trazer escolas para visitas guiadas. Essa formação de público é fundamental. A história da humanidade sempre foi contada visualmente, desde as pinturas rupestres. As artes visuais são uma das formas mais antigas de expressão, e é importante que elas tenham o devido reconhecimento”, afirmou. 

“Depois da pandemia, a galeria chegou a ficar cheia de materiais e equipamentos” 

A artista Bia Vargas, também participou das discussões que antecederam a retomada da galeria e relembra que há anos defendia a reativação do espaço. “Atuo nas artes plásticas desde 1992. São cerca de 30 anos de trabalho. Eu fui uma das pessoas que sempre cobrou o retorno da galeria, que ficou fechada por tanto tempo”, conta. 

Segundo ela, a expectativa é positiva diante das mudanças anunciadas. “Estou com muita esperança. Pelo que o secretário Hakuna falou, a intenção é devolver a galeria para os artistas. E percebo que ele tem conhecimento da área, o que faz muita diferença”, afirmou. 

Bia explica que, para muitos artistas, especialmente aqueles que trabalham com instalações, a existência de um espaço apropriado é essencial. “Eu trabalho com instalação, e não é algo que se coloca em qualquer lugar. Precisa de uma galeria preparada. Por isso esse retorno é tão importante. Estou vendo com bons olhos e acreditando que a mudança está acontecendo”, disse. 

Ela também recorda momentos em que o espaço esteve abandonado. “Depois da pandemia, a galeria chegou a ficar cheia de materiais e equipamentos. Em uma ocasião eu vinha fazer uma instalação e desisti porque o espaço estava tomado. Por isso é tão importante que agora ela volte a cumprir sua função original”, relatou. 

Exposição marca retomada cultural 

Além de Denise Souto, Bia Vargas e Levy Vargas, a mostra “Entre Gestos e Silêncios” reúne os artistas Ana Lívia Silveira, Rayi Ramirez Tupinambás, Jerusa Guimarães Queiroz, Thais Duarte, Florence Hallack, Jonas Vieira, Gusthavo Medeia Xavier, Ângela Espíngelas, Maurício Paulino, Wagner Andrade, Élcio Júnior, José Márcio Silva, Armando Branquinho, Maria de Fátima Quadros e Gláucio Bustamante. 

A diversidade de técnicas e linguagens cria um diálogo entre diferentes estilos e gerações de artistas, ampliando as possibilidades de interpretação do público. 

A abertura oficial acontece 19 de março, das 17h às 21h, e a exposição poderá ser visitada de 20 a 31 de março, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, no segundo andar do Espaço Cultural Adelino Pereira Quadros. 

Quem foi Ahmés de Paula Machado 

A galeria leva o nome do artista Ahmés de Paula Machado, pintor, gravador e professor que teve papel importante na história das artes no Brasil. Nascido em 1921, na cidade de Iconha, no Espírito Santo, Ahmés mudou-se ainda criança para Itaúna, onde viveu parte da infância e adolescência. Sua formação artística começou em Belo Horizonte, em 1938, quando estudou com o professor Rafaello Berti e participou do II Salão de Belas Artes da capital mineira. 

No mesmo ano transferiu-se para o Rio de Janeiro, ingressando na Escola Nacional de Belas Artes, onde participou do movimento que defendia a renovação dos métodos de ensino artístico no país. Nesse período integrou o grupo ligado ao pintor Alberto da Veiga Guignard, responsável por importantes debates estéticos da época. 

Durante a década de 1940, participou da exposição “Os Dissidentes”, que reuniu estudantes críticos à orientação acadêmica dominante na escola. Mais tarde, especializou-se em gravura, estudando com o mestre Carlos Oswald. 

Em 1954, conquistou o Prêmio de Viagem ao Exterior no Salão Nacional de Belas Artes, oportunidade que lhe permitiu estudar litografia na Europa, passando por cidades como Florença, Madri, Londres e Paris. 

De volta ao Brasil, tornou-se responsável pela implantação do ateliê de litografia da Escola Nacional de Belas Artes e assumiu a regência do curso na instituição, função que exerceu até sua morte, em 1985. 

Ahmés participou de importantes eventos artísticos, como a Bienal Internacional de São Paulo, e teve obras incluídas no acervo do Museu Nacional de Belas Artes, consolidando seu nome entre os artistas relevantes da arte brasileira do século XX.