Itaúna em luto: mais um feminicídio expõe a escalada da violência contra mulheres

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Itaúna amanheceu novamente tomada pela dor e pela indignação. No último domingo (15), mais um caso de feminicídio abalou moradores e reacendeu o debate sobre a escalada da violência contra mulheres no município. A advogada Rebeca Lima Freire, de 37 anos, foi morta a tiros na entrada do prédio onde morava, na Avenida Getúlio Vargas, região central da cidade. O autor dos disparos, o ex-companheiro Webert Vieira Miranda, de 34 anos, tirou a própria vida em seguida. 

Segundo informações registradas pela Polícia Militar, Rebeca chegava ao edifício acompanhada de um jovem de 26 anos quando foi surpreendida pelo ex, que a aguardava no local. Armado com um revólver calibre 38, ele efetuou um disparo contra a vítima e, logo após, atirou contra si. Quando as equipes de socorro chegaram, Rebeca já estava sem vida. O agressor ainda apresentava sinais vitais, mas não resistiu. 

Testemunhas relataram momentos de desespero. O rapaz que acompanhava a advogada ficou em estado de choque e precisou de tempo para conseguir relatar o ocorrido às autoridades. A motivação do crime, conforme apurado preliminarmente, estaria ligada à não aceitação do fim do relacionamento. Webert morava em Belo Horizonte e teria vindo a Itaúna com a intenção de tentar reatar a relação. 

A arma foi recolhida para perícia e o inquérito deverá ser concluído formalmente, apesar da morte do autor. 

RETRANCA 

Uma sequência de crimes que choca e causa revolta na população 

Com a morte de Rebeca, Itaúna registrou o terceiro feminicídio em poucos meses — uma sequência que tem causado comoção coletiva e sensação de insegurança. O que mais inquieta a população é o padrão de brutalidade e aparente premeditação dos crimes, todos cometidos sem qualquer possibilidade de defesa das vítimas. 

O assassinato de Mirelly Cristina da Silva, de 21 anos, foi outro crime que gerou repercussão. A jovem foi morta com mais de 20 golpes de faca pelo ex-namorado, em plena via pública. O ataque foi registrado por câmeras de segurança, evidenciando a violência extrema e a impossibilidade de reação. O suspeito foi preso poucas horas depois. 

Outro caso que permanece na memória recente da cidade é o de Henay Rosa Gonçalves Amorim, de 31 anos. Inicialmente tratado como um acidente na rodovia MG-050, o episódio ganhou novos contornos após análises técnicas e inconsistências no depoimento do companheiro, que acabou confessando ter provocado a morte de Henay e simulado a colisão. Amigos relataram histórico de agressões durante o relacionamento. 

OAB manifesta pesar e reforça compromisso para combater a violência de gênero

A Ordem dos Advogados do Brasil, por meio da seccional mineira, divulgou nota pública lamentando profundamente a morte da advogada. A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Minas Gerais, através da Comissão das Mulheres Advogadas e da Comissão de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, manifestou indignação diante do crime e solidariedade à família. 

No comunicado, a entidade destacou que Rebeca integrava os quadros da subseção de Itaúna e que sua morte representa uma perda irreparável para familiares, amigos e para a advocacia mineira. A instituição classificou o assassinato como mais uma expressão cruel da violência de gênero que persiste na sociedade brasileira. 

A OAB reafirmou o compromisso de suas comissões com o enfrentamento ao feminicídio e à cultura machista que naturaliza comportamentos violentos. Também reforçou que o combate à violência contra a mulher deve ser tratado com rigor, responsabilidade institucional e políticas públicas permanentes. 

Em meio à dor, Itaúna se vê diante de um alerta urgente. Mais do que lamentar, a cidade passa a discutir caminhos para impedir que novas histórias sejam interrompidas pela violência. 

LEVANTE CONTRA VIOLÊNCIA 

População convoca marcha contra Feminicídio na Praça da Matriz 

Diante da sequência de feminicídios que abalou Itaúna nos últimos meses, a população decidiu transformar dor em mobilização. Neste sábado, 21, moradores irão às ruas para participar da “Marcha Contra o Feminicídio”, com concentração marcada para as 8h, na Praça da Matriz. 

O ato surge como resposta direta aos quatro casos recentes registrados na cidade, crimes que provocaram comoção coletiva e reacenderam o debate sobre a urgência de políticas públicas eficazes de prevenção e enfrentamento à violência contra a mulher. A mobilização está sendo organizada por cidadãos, movimentos sociais e apoiadores da causa, que convocam a comunidade a “arregaçar as mangas” e se posicionar publicamente contra a escalada da violência. 

A divulgação do ato reforça o lema que tem ecoado em manifestações por todo o país: “Nem uma a menos”. A proposta é que os participantes levem uma camisa branca para pintura, simbolizando paz, mas também servindo como espaço de expressão, memória e protesto. A cor branca foi escolhida como sinal de união e luto coletivo. 

Além do protesto, o ato pretende ser um momento de reflexão e solidariedade às famílias das vítimas. A frase da filósofa francesa Simone de Beauvoir estampada no material de convocação — “Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre” — resume o espírito da manifestação: defender o direito das mulheres à vida, à autonomia e à segurança. 

A Praça da Matriz, tradicional ponto de encontro da cidade, deve se transformar em palco de discursos, homenagens e pedidos por justiça. Organizadores esperam grande adesão popular, sobretudo diante do sentimento generalizado de indignação e da percepção de que a violência de gênero atingiu níveis alarmantes no município.