Medo volta às margens do Rio São João e moradores temem enchentes

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A angústia voltou a rondar moradores de Itaúna na última semana. O aumento repentino do volume do Rio São João, aliado a alagamentos pontuais na Avenida Jove Soares, acendeu o alerta e trouxe à tona lembranças dolorosas de um passado recente marcado por enchentes. A comunidade dos bairros São Judas Tadeu e Santanense relatou à reportagem do Jornal S’Passo o medo de ver a água avançar rapidamente, repetindo cenas que se tornaram familiares nos últimos anos. 

A história, porém, não é nova. Itaúna convive com enchentes desde o início do século passado — registros apontam para um grande evento entre 1918 e 1919. Porém, foi nos últimos anos que os episódios ganharam intensidade e gravidade. 

Em janeiro e fevereiro de 2022, um período de chuvas torrenciais provocou o transbordamento do Rio São João e do Ribeirão Joanica, deixando cerca de 720 pessoas desalojadas e levando a prefeitura a decretar situação de emergência. A população ainda se recuperava quando, em outubro e novembro de 2023, novos temporais voltaram a causar prejuízos: carros arrastados, quedas de árvores e alagamentos severos em diversos bairros, especialmente na Avenida Jove Soares. Meses depois, em 13 de janeiro de 2024, o cenário se repetiu, reforçando o trauma coletivo. 

Diante desse histórico, a chuva forte registrada na última semana trouxe pânico. E é justamente nesse contexto que moradores procuraram a reportagem para denunciar situações graves de assoreamento no Rio São João e no Ribeirão dos Capotos, problemas que, segundo eles, ampliam o risco de novas tragédias. 

RETRANCA

Assoreamento do Rio São João preocupa comunidade do bairro São Judas 

A primeira denúncia recebida pelo Jornal S’Passo é referente ao trecho final da Avenida São João, onde o rio já não esconde o acúmulo de sedimentos. Moradores relatam que, durante as chuvas da última semana, a água subiu rapidamente e ultrapassou parte das bordas — algo que não acontecia havia meses, mas que reacendeu as lembranças das enchentes de 2022. 

Um morador relatou à reportagem o receio que tomou conta da vizinhança: “O maior medo que temos é que as enchentes façam com que nós, moradores dessa parte da cidade, percamos móveis e eletrodomésticos, como ocorreu na última grande enchente de 2022. Naquela época, todo mundo ficou desesperado, muita gente perdeu tudo.” 

Segundo os relatos, o desassoreamento não foi realizado em 2024 e nem este ano no ponto denunciado — nem em outros trechos próximos. A consequência, afirmam, é que o rio já quase transbordou há duas semanas. “O trator não tirou terra aqui este ano! E até cerca de 600 metros pra frente também não houve retirada de detritos e terra do leito do rio. Por isso, quase transbordou. A gente cobra que a administração faça urgente o desassoreamento neste ponto, que é o mais fácil para o trabalho.” 

Ainda de acordo com a comunidade, a erosão das margens avança de forma preocupante, afetando inclusive parte do passeio de caminhada. Em alguns trechos, o solo já começou a ceder. 

 RETRANCA

Ribeirão dos Capotos: água escassa, esgoto e risco para Santanense 

A segunda denúncia encaminhada à reportagem diz respeito ao assoreamento do Ribeirão dos Capotos, em Santanense. Moradores relatam que o curso d’água, antes volumoso, hoje se resume a um filete que corre misturado a esgoto despejado irregularmente quilômetros acima. 

Geralda Lobo, moradora antiga da região, recebeu a equipe do Jornal S’Passo e mostrou o cenário: lama escura, mau cheiro forte e até animais mortos enterrados no barro. Ela teme o que pode acontecer quando as chuvas aumentarem. “Se não há manutenção, pode ser que com as próximas chuvas a água venha a prejudicar a estrutura da minha casa e até atingir as casas dos vizinhos que não têm contenção. Agora a água está pouca, mas quando vem chuva, enche rápido. Em 2022, chegou no limite da contenção. Agora, com o assoreamento, pode ultrapassar e invadir as casas — isso se não abalar as estruturas.” 

Geralda cobra que o SAAE tome providências urgentes. “O SAAE precisa arrumar as redes de esgoto que continuam despejando dejetos no ribeirão. E a prefeitura tem que fazer o desassoreamento. Aqui o acesso é difícil, então precisa de máquina pequena, um serviço especializado.”