@toniramosgoncalves*
Todo ano, quando chega agosto, faço questão de subir o morro e prestigiar a Festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário, tão tradicional na cidade e marcante na minha infância. Faço essa visita como se fosse uma viagem ao meu passado, pois sempre paro em frente à casa em que um dia morei.
A rua, na época, chamava-se Alegria — bem irônico para um lugar onde só havia gente e casas miseráveis. Hoje está tudo mudado: a rua esburacada foi calçada; os barracos deram lugar a novas casas, de dois andares e até coberturas.
Qualquer um acharia suspeita uma pessoa parada defronte de uma casa, observando por longos minutos sem acionar o interfone ou tocar a campainha. Foi isso que fiz alguns anos atrás. A porta e todas as janelas estavam fechadas. Parecia uma casa morta: sem pai, sem mãe, sem cachorro, sem o som alegre das crianças. A primeira pessoa de quem me lembrei foi minha mãe. A imagem dela, morta no caixão, mostrava seus olhos fechados; estava quieta como aquela casa de janelas cerradas — imperturbável.
E naquele dia fui mais além. Atrevi-me a sentar nos degraus daquela calçada, de rua íngreme, e observar o horizonte. Recordei o crepúsculo, o canto das cigarras, o rádio de alguma casa tocando “Ave Maria”, pontualmente às dezoito horas. Era o horário em que os meninos e, na maioria, as meninas saíam de seus barracos, depois de trocarem os uniformes escolares por roupas comuns, para brincar na rua de pega-pega.
Os anos se passaram e, naquele dia, sentado em frente à casa, cheguei a prender a respiração de saudade. Uma nostalgia que dançava pelo ar. Então imagino minha mãe, agora viva, que me recebe recostada na cama, com contas espalhadas por todos os lados. Um olhar, e eu, imediatamente, me vejo dentro do antigo barraco de dois cômodos, no mundo de cacarecos que ia surgindo pelos armários e pelas paredes, como uma praga doce e vibrante. Tudo muda — eu mudei — mas ainda é nítida essa sensação de que ela carregou a casa nas costas, como um grande caramujo a caminho de lugar nenhum. Aí vem aquela vontade louca de voltar a ser um garoto, apagar meu CPF e voltar a ser alguém cheio de sonhos. Que vontade de voltar no tempo e olhar o rosto cansado da minha mãe, reclamando que estávamos na mais completa miséria e que tudo — tudo — estava atrasado.
Ah, como a memória insiste em estacionar em vagas proibidas. Não há jeito. Em meio a tantas lembranças, há o cheiro bom da minha mãe — cigarro, cebola, sabonete, cansaço, velhice. Aí você, leitor, pergunta: e seu pai? Não… nessa busca incessante, não encontro meu pai. O que existe é um grande vazio.
Lembro da chuva fina naquele dia cinzento e triste, enquanto a enterravam. Minhas lágrimas foram discretas no velório e no enterro, como se eu, o filho mais velho, devesse proceder assim. Ao ver o caixão baixado na sepultura, percebi que nada mais adiantaria.
Não sei dizer quanto tempo fiquei ali, naquela calçada. A certeza é de que não havia mais ninguém naquela casa — silenciosa e vazia como a minha alma. O que havia era o desejo de esquecer e, ao mesmo tempo, recordar.
* Toni Ramos Gonçalves (Não é o Global)
Professor, Historiador, Escritor, Editor, ex-presidente e um dos fundadores da Academia Itaunense de Letras – AILE.







