Pastor critica Carnaval na Jove Soares, no trecho em que está localizada a Igreja Batista Betel

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Parlamentares apontam que executivo está disposto a “rever o planejamento nos próximos anos”, buscando mais diálogo com as partes envolvidas 

A sessão desta semana na Câmara foi marcada por um discurso inflamado do pastor Silas da Silva Lima, que utilizou a tribuna para apresentar uma “carta de repúdio” à realização do Carnaval na Avenida Jove Soares, em frente à Igreja Batista Betel. Em sua fala, o religioso misturou argumentos jurídicos, referências bíblicas e posicionamentos políticos, ampliando o debate para além da localização da festa. 

Silas questionou a escolha do trecho da avenida onde está situado o templo evangélico, alegando desrespeito à Constituição, especialmente ao artigo 5º, e mencionando dispositivos do Código Penal. Segundo ele, promover o evento naquele ponto da cidade representa afronta à comunidade evangélica. Durante o pronunciamento, também citou discursos associados a grupos políticos conservadores, elogiou o ex-presidente Jair Bolsonaro — atualmente preso — e convocou vereadores evangélicos a se posicionarem publicamente contra a decisão do Executivo. 

O pastor mencionou nominalmente os vereadores Israel Lúcio, Kaio Honório, Léo Alves e Giordane Alberto, pedindo que se unissem em repúdio por compartilharem da mesma fé. A fala, no entanto, gerou reações distintas entre os parlamentares. 

Giordane Alberto afirmou que, embora não seja frequentador do Carnaval, reconhece a importância cultural e econômica da festa para o município e para o país. Defendeu respeito às igrejas de qualquer denominação, mas ponderou que o evento deve continuar existindo. Ele sugeriu que, em edições futuras, a organização avalie alternativas de local, evitando a realização em frente a templos religiosos. 

Já Israel Lúcio destacou que houve reunião com o prefeito para tratar da reivindicação apresentada por igrejas, comerciantes e moradores da região. Segundo ele, os vereadores não têm poder para determinar decisões do Executivo, mas podem solicitar providências e fiscalizar eventuais irregularidades. “Dentro daquilo que a lei determinar, vamos cobrar”, afirmou. 

O debate também trouxe à tona críticas de parte da comunidade evangélica quanto a prejuízos ao comércio local e ao incômodo causado aos cultos. Por outro lado, vereadores ressaltaram que o Carnaval é uma manifestação tradicional, capaz de movimentar a economia e atrair público, ainda que, como qualquer evento, desagrade alguns segmentos. 

O presidente da Câmara Antônio de Miranda, Toinzinho, ponderou que a festa, sendo popular, inevitavelmente gera opiniões divergentes, independentemente do local escolhido. Segundo ele, o prefeito reconheceu falhas de comunicação na condução do processo por parte da Secretaria Municipal de Cultura e demonstrou disposição para rever o planejamento nos próximos anos, buscando maior diálogo com as partes envolvidas. 

“Não existiu em momento algum por parte do executivo e por esta Câmara, a vontade de provocar um embate de uns contra os outros. O que vi do prefeito, na minha opinião, foi um desconforto com o ocorrido e falta de comunicação da Secretaria de Cultura, já que o prefeito dá autonomia aos secretários para resolver questões administrativas de cada pasta”, pontuou. 

Alexandre Campos também se posicionou, lembrando que o espaço público deve atender a toda a coletividade. Ele citou exemplos históricos de realização do Carnaval em áreas próximas a igreja Matriz de Sant’Ana que funcionou até a década de 1990, e argumentou que a Constituição garante tanto a liberdade religiosa quanto o direito à manifestação cultural. “É um evento que acontece uma vez por ano e que precisa ser tratado com equilíbrio”, afirmou. 

Outro ponto levantado nos bastidores é que eventos religiosos, como a Marcha para Jesus, já utilizaram o mesmo espaço público para celebrações com trio elétrico, cultos e apresentações musicais. Para críticos do discurso do pastor, a discussão expõe uma contradição: quando se trata de manifestações religiosas, o uso da via é considerado legítimo; quando envolve o Carnaval, passa a ser visto como inadequado. 

A polêmica evidencia um embate mais amplo sobre laicidade do Estado, liberdade de culto e direito à cultura. Enquanto parte dos parlamentares defende ajustes na organização para evitar novos conflitos, outros sustentam que o espaço público deve permanecer acessível a diferentes expressões da sociedade — religiosas ou festivas — sem privilégios ou exclusões.