Sílvio Bernardes
“Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais
Brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas
Foi o que restou” (VINÍCIUS DE MORAES, “Marcha da quarta-feira de cinzas”)
Depois que o carnaval acabava a gente ficava com aquelas cenas na cabeça por muito tempo. As músicas, então, nem se fala. “Quem quiser ver/ suba à praça da matriz/ que a escola vai relembrar…” “Licença, licença, licença, a Escola de Samba dos Pães quer mostrar/ a rua direita em carnaval…”. “Alá lá ô ô ô ô/ ai que calor ô ô ô ô ô…”. E assim era um tal de querer reproduzir a folia momesca no meio da turma de moleques da minha rua, que eu vou te contar. O carnaval era coisa de gente grande. A molecada do meu tempo, sem dinheiro e sem muito prestígio entre os “de maior”, tinha mais era que imitar os desfiles dos adultos. De primeiro era assim, passada a festa, a meninada queria mais e não podia. A mãe ralhava com a gente: “menino, o carnaval já acabou, quem brincou, brincou, pare com isso. Agora é tempo de quaresma. Tempo de religião. Tempo de reza e de abstinência. É pecado ficar fazendo folia nesses tempos. Deus castiga!”. Era pecado querer brincar o carnaval no tempo da quaresma, mas a gente queria cantar as músicas, imitar a folia vista na avenida (no nosso caso, na Rua Silva Jardim e na Praça da Matriz). Os meninos – meus irmãos especialmente – buscavam couro (que fedia à beça) no curtume do Jandir Milagres para confeccionar os instrumentos feitos de lata… “Olha o bloco dos sujos/ tá batendo na lata/ alegria barata…” Havia ritmo, havia empolgação, havia criatividade. A meninada levava jeito pra coisa. Mas não podia, na quaresma não! Esperar o próximo carnaval era muito tempo. E a gente brincava às escondidas, driblando o medo dos pais e do castigo divino por brincar o carnaval em plena quaresma. Tinha gente que exagerava nas advertências: “gente que brinca carnaval na quaresma vira lobisomem, vira mula sem cabeça. E vai direto pro inferno!”.
De primeiro, a quaresma era um período longo pra danar. Durava uns sessenta dias ou mais, eu acho. E a gente tinha que respeitar aquele tempo. Não pode isso, não pode aquilo. “Não pode comer carne, não pode falar palavrão (muitos falavam: “imoralidades”), não pode fazer indecência rsrs. Tem que respeitar as coisas de Deus… Lá atrás, uma muié desrespeitou as coisas de Deus no tempo da quaresma, sabe o que aconteceu com ela? Sabe o que aconteceu com ela? Virou mula sem cabeça. Todo ano ela vira mula sem cabeça e sai às noites fazendo maldade. Muita gente já viu ela assim. Horrível. Deus que nos livre e guarde”.
Hoje em dia o carnaval já não tem mais a mesma empolgação e nem deixa muito aquele gostinho de quero mais. E a quaresma é um tempo tão curto que os pais nem pedem para que os filhos evitem as indecências e os palavrões e as maldades e a falta de limites e o desrespeito às coisas de Deus. Acho que hoje pode tudo, mas o povo já nem brinca mais o carnaval. Muita gente pula o carnaval.
Mas, diferente disso aí, meu amigo Pedro Santos é doidinho com o carnaval… daqui, de Belo Horizonte, de Tiradentes, do Rio de Janeiro, fevereiro e março. Esse moço gosta demais da conta. Falou em carnaval, o Pedro responde na hora: “tô dentro!”, não importa a época.