Sílvio Bernardes
De primeiro, nos primórdios de minha meninice, eu e minha família morávamos num lugar que muitos chamavam de Cava. A Cava ficava próximo da igreja do Rosário e da Laje. Em frente à nossa casa ficava a chácara do Sô Umberto Salera. A chácara ocupava todo o quarteirão e fazia divisa com a igreja do Rosário, com a capelinha acima, com o ‘Cantinho do Céu’ – um pedaço alegre e pobre da zona boêmia – e com o campinho de futebol, onde hoje está o bairro Santo Antônio. Ali, naquele espaço mágico e de luxo – especialmente para nós, meninos pobres do Alto do Rosário – havia uma casa imponente, com muitas dependências, piscina, espaço de lazer e uma cascata de águas cristalinas. Muitos de nós nem água encanada tínhamos em nosso humilde barraco. Mas éramos vizinhos da chácara do Sô Umberto Salera.
No entorno da chácara havia barracões de aluguel onde moravam muitos dos nossos perceiros de estripulia da meninice. Mas a chácara propriamente dita era o nosso universo de sonhos. Constituía numa floresta cheia de mistérios em grutas, cavernas, seres fantásticos, grandes animais e armadilhas. E era, simplesmente, um mundo de delícias em um colosso de frutas: manga de várias qualidades, jabuticaba, abacate, jambo, laranja, mexerica, banana, pitanga, goiaba branca e vermelha, jatobá… “Menino, cuidado! Se comer jatobá, não pode beber água por cima. Tem que esperar umas duas horas. Muito perigoso”, era o aviso da mãe. Também, naquele tempo era um veneno manga com leite. Matava que é uma beleza. Até contavam que uma mulher ali das proximidades morrera porque bebera leite depois de chupar umas boas mangas da chácara. Foi essa a versão que o namorado dela deu para a polícia, que não engoliu nem um pouco a conversa e constatara, sem muito esforço, que ela fora assassinada pelo dito cujo com um tiro nas costas.
A corriola de meninos da qual o autor dessas linhas fazia parte frequentava muito a chácara do Sô Umberto, especialmente em invasões, quando a vigilância cochilava. Penetrávamos aquele bosque imenso com cuidado e emoção e colhíamos pequenas gostosuras em tempos de “quintais maduros”, na expressão usada pela escritora Maria Lúcia Mendes. A chácara era cuidada por um senhor de nome Afonso. Era um moço muito claro, esgrouviado, de chapéu surrado, baixo e de bom coração, que presenteava “os bons meninos” com baciadas de frutas maduras. De vez em quando víamos por ali o velho italiano Umberto Salera, envergando belo terno com um relógio de bolso preso por uma corrente transpassada na parte da frente do seu paletó. A figura do Sô Umberto parecia saída daqueles antigos filmes italianos de Fellini e nos concitava a experiências diferentes do nosso mundo, estranhas ao dia a dia daquela chácara. Umberto Salera era sapateiro, ou, “calzolaio”, como diziam os italianos. Segundo a história, nasceu em Tramutola, em 19 de abril de 1882. Chegou ao Brasil, no Rio de Janeiro, em 1910 e veio para Itaúna ainda nos primeiros anos dessa década. Aqui faleceu aos 85 anos e tornou-se famoso por causa de um presépio com peças que se movimentavam, armado próximo de sua casa no centro de Itaúna. O presépio do Umberto Salera foi, por muito tempo, atração turística na provinciana Itaúna.
Mas, mesmo com a sua figura importante, o Sô Umberto Salera olhava aqueles moleques com carinho e por muitas vezes solicitou ao empregado Afonso que nos deixasse passear pela chácara para colher no pé as frutas de nossa preferência.







