Que história é essa? A fita K7

0
1055
Sílvio Bernardes

A fita cassete, por muitos conhecida apenas pela sigla “K7”, fez sucesso nos meus tempos de menino pequeno (kkkkk). Como o próprio nome sugere – de origem francesa –, era uma pequena caixa de plástico com dois carreteis de fita dentro, e a gente a descobriu maravilhado. Eu disse maravilhado? Põe maravilhado nisso! Era o melhor de tudo. Imagine poder gravar naquela caixinha as músicas que a gente gostava e que ouvia tocar no rádio? A seleção de vários discos numa fita somente? Eu dei e ganhei de presente várias fitas cassete, compradas prontas ou por mim gravadas. A fita k7 era massa demais. E não tínhamos a preocupação dela se arranhar ou quebrar facilmente, como os discos de vinil. E tinha dois lados. E tinha as virgens que a gente desvirginava com a seleção das nossas canções ou com a nossa própria voz gravada (kkkk). Eu, repórter usei muito as fitas K7 para as minhas entrevistas. Aquela caixinha me emocionava. Deixava-me quase que como diante de um livro novo – aqueles que têm cheiro e que nos fazem sonhar logo no primeiro contato.  O toca-fitas foi grande companheiro de tanta gente, em casa, na rua, no carro. Quem nunca chorou – ou apenas se emocionou demais – na solidão do carro, ouvindo aquelas coisas bonitas que os compositores fizeram (para nós?) ? As serenatas, as horas dançantes…

Eu tive uma relação muito bacana com a fita k7. Primeiro foi a música. Como eu disse aí atrás, naquela caixinha cabiam as músicas que a gente escolhia para ouvir com os amigos e com outros amores. Depois, foram as gravações de histórias: os trabalhos escolares e as entrevistas joranalísticas. Quando eu fui chamado pelo Célio Silva para trabalhar como repórter do “Jornal Brexó”, ganhei um gravador e várias fitas cassetes – nenhuma virgem, todas regravadas. Tá bom, era um gravador enorme, mas eu o carregava numa bolsa à tira-colo – estilo hippie – e me sentia importante pacas. Com ele e as fitas k7 fiz inúmeras audições, com gente simples e importante. Depois, mais tarde, comprei um gravador pequeno (de 14 cm), da marca Polyvox, cuja fita de gravação era minúscula, uma gracinha. Foi uma grande conquista na minha vida profissional. Senti muito mais competente (e importante) com aquela nova tecnologia. O pequeno gravador existe até hoje e outro dia eu o levei para que os meus alunos do Ensino Fundamental II o conhecessem.  Até contei a história nas minhas redes sociais: “Ser professor é impagável. O relacionamento em sala de aula –  fundamentalmente novo a cada dia – nos traz situações muitas vezes divertidas e inesquecíveis. Outro dia, numa das aulas de História, com uma turma dos pequerruchos, solicitei que os alunos levassem um objeto pelo qual tinham alguma afinidade, para uma dinâmica sobre a memória de cada um. Também levei o meu: um antigo gravador Polivox, com o qual comecei minha carreira de repórter. Contei a história daquele aparelho, de quando eu era jovem, essas coisas… uma menina (11 anos), esperta, atenta e demasiadamente irônica, me interrompeu: “profe, mas o senhor ainda se lembra das coisas dessa época?” Não me contive cai na risada.

Pois, é, já faz tanto tempo. Mas eu me lembro muito bem. A gente rebobinava a fita K7 – quando ela cismava de engastaiar dentro da caixinha – usando uma caneta Bic ou um lápis. Quando aquela fitinha marrom que tinha dentro da caixinha embolava a música perdia o compasso e as falas gravadas ficavam que nem conversa de bêbado. Um horror.

Depois, inventaram também o vídeo cassete para que a gente gravasse e reproduzisse nas fitas os nossos filmes inesquecíveis. A grande caixa VHS era uma caixa mágica. E porque não dizer que era sempre uma caixa de surpresa, ainda que soubéssemos de cor o seu conteúdo. A mocinha da locadora de vídeo conferia sempre as fitas devolvidas, se não estivessem rebobinadas, pagávamos uma multa. Até pouco tempo eu pensava que tínhamos que rebobinar os filmes em DVD para não pagar multa à locadora.