Sílvio Bernardes
Já escrevi aqui nessas páginas acerca da praça da matriz, a famosa “Praça Dr. Augusto Gonçalves” – que tem o monumento dedicado a este ilustre cidadão, mas que tomou forma de “escorregador” de meninos pequenos e calvos –, mas agora quero reportar-me somente à sua parte baixa, situada em frente a antigos estacionamentos de carros de praça, com a qual convivi em diversos momentos da minha infância. Era a parte mais movimentada, tirando, é claro, o espaço da igreja e o seu entorno. Naquele quarteirão onde eu trabalhava como engraxate e, depois, como baleiro do Cine Rex, havia uma infinidade de coisas que hoje constitui apenas em reminiscências de nós que já nos encontramos ‘dobrando a serra’.
Ao virar a rua Capitão Vicente e entrar na Gonçalves da Guia, o cidadão encontrava-se com o Automóvel Clube, onde aconteciam concorridíssimos bailes, as melhores batalhas de carnaval, as matinês dos meus dias de meninice e onde as mocinhas realizavam suas festas de debutantes – com tanto glamour e aplomb. Era o clube da família. Da boa família de minha terra. Embaixo do clube se instalava o restaurante Automóvel Clube, lugar onde o povo importante se abastecia de boa comida e de bebidas alcóolicas. Junto do restaurante havia a Casa Ferreira, loja em que se vendia de tudo para as pessoas se vestirem e andarem com elegância. O homem do programa de rádio até dizia que lá tinha “sapato para homem de bico fino, sapato para muié de duas cor, sapato para menino de correinha”. Tinha, mas acabou.
A rodoviária de Itaúna funcionava nesta parte da praça da matriz. Um comodozinho simples, com um guichê e um banco de madeira, onde a gente comprava passagem para “Belorzonte”. Lá mais adiante ficava um outro ponto de venda de passagens (e parada de ônibus) de Divinópolis e Pará de Minas. E tinha por ali também o Banco do Brasil e o Banco Mercantil do Brasil, depois vieram o Bemge e a Minas Caixa.
Naquela alameda pontificavam o Cine Rex e toda sua atmosfera de arte e dos encontros de amigos e de corações enamorados. Naquele ambiente, com certeza, se misturavam a genialidade dos que faziam a sétima arte com a emotividade dos primeiros beijos de amor entre os casais, mais a reafirmação de camaradagem entre os parceiros. Ao lado do cinema estava o lendário reduto da boemia, o Bar Azul, e espremido entre os dois, um botequim simpático denominado Buraco do Tatu. Ali, no Bar Azul, do Nenem Drumond, dizem, um homem, no auge de sua dor solitária, tomou guaraná com formicida e despediu-se da vida em silêncio. Talvez a vitrola tocasse uma canção melancólica tão apropriada da época, talvez a noite estivesse fria, talvez o bar estivesse vazio e os garçons distraídos.
Quem por ali passava se encontrava ainda com o Bar do Miranda – chamado de Barril – e com a famosa Chopita, com alguns salões de barbeiro e com o restaurante Rodoviário, onde a comida cheirava ao longe nos convidando o tempo todo a experimentar pratos vários.
Andar por ali à noite – especialmente à noite – era uma agradável aventura. Um passeio repleto de arte e magia. Tudo podia acontecer: um encontro programado (ou inesperado) ou um convite para experiências jamais vivenciadas. Em tantas opções e oportunidades as pessoas se relacionavam, se viam e eram vistas. Havia encontros e desencontros, chegadas e partidas. Emoções de quem vem, lágrimas de quem vai. Acenos de “insigne partintes” e abraços de “insigne ficantes”.
Aquela alameda na praça da matriz era o caminho que os homens grandes tomavam – depois de beber umas e outras nos balcões dos botequins próximos – rumo ao alto: à zona boêmia, a nossa histórica Coréia. E a noite não tinha fim. E tudo era uma festa – ou não.







