Que história é essa? As três meninas

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Sílvio Bernardes

Eu conheci a poesia de Cecília Meireles “As meninas” no colégio – época do secundário, hoje chamado de ensino fundamental II –, num livro didático. E naquela época me apaixonei imensamente pela poesia da Cecília. Todas elas. Assisti no teatro – tempos depois – a uma performance de “O Romanceiro da Inconfidência” e vi, também encenados outros poemas dela. Mas, sobre ‘As meninas’, quando minha filha Anna Bella era criança, costumava ler para ela essa obra e, de propósito, trocava o nome Arabela por Anna Bella: ‘a mais bela menina’!

“Arabela abria a janela.

Carolina erguia a cortina.

E Maria olhava e sorria:

“Bom dia!”

Arabela foi sempre a mais bela.

Carolina, a mais sábia menina.

E Maria apenas sorria:

“Bom dia!”

Pensaremos em cada menina

que vivia naquela janela;

uma que se chamava Arabela,

uma que se chamou Carolina.

Mas a profunda saudade

é Maria, Maria, Maria,

que dizia com voz de amizade:

“Bom dia!”

Lembrei-me outro dia deste poema observando três alunas da minha escola – também do ensino fundamental II – que não se chamam Arabela, Carolina e nem Maria, mas que andam juntas ainda que uma delas não é da mesma sala das outras duas. No recreio e nas atividades coletivas as três meninas estão sempre juntinhas, coladas. Sorridentes e divertidas nas conversas das três. Comem juntas, vão ao banheiro juntas, à secretaria, ao ponto de ônibus e, também, à biblioteca. As meninas gostam de poesia e até conhecem as de Cecília Meireles. São estudantes muito aplicadas. Disciplinadas. Tiram boas notas em português, história, geografia, artes e leitura. E têm comportamento elogiável. Porém, para além dos muros da escola, a vida das três meninas não é muito alegre e não tem nada de poesia.

Uma delas, a mais clara e menos falante, de aparelho nos dentes, veio me contar, um dia, que saiu da casa da mãe e que mora hoje com os avós maternos – dois “velhinhos gente boa”, de cinquenta e poucos anos. Há poucos anos, durante a pandemia, a mãe – largada de marido – arranjara um namorado e o levou para dentro de casa. O dublê de padrasto é um jovem, “malandro, que não gosta de trabalhar”. Fica o dia todo em casa, “mexendo com droga e jogando videogame”. Desde quando chegou à casa pousou um olhar enviesado naquela menina de doze anos e num determinado dia ela o surpreendeu espiando-a enquanto trocava de roupa. Antes, quando tomava banho, teve a impressão de que o cara a olhava pela fresta da porta. A menina não sabia que ele estava em casa nesse dia e que podia tomar banho impunemente.

A outra, também clarinha e de sardas, que nos primeiros dias de aula não conversava muito, tinha a cara fechada e o olhar triste – mas que hoje sorri de tudo e para todos; e que fala pelos cotovelos –, conta que vive às turras com o irmão mais velho, o “queridinho da mamãe”. O pai não aparece em casa há muitos anos. Dizem que está preso. O irmão quer mandar em tudo. Faz dela sua empregada e tem concepções machistas nas falas e atitudes, “não dando um minuto de sossego” quando está em casa: faz isso, não faz aquilo, isso pode, isso não pode; não use essa roupa, não vai, não vai… vai cuidar do seu irmãozinho. Por qualquer coisa que o contraria, o moço bate na menina.

A terceira, morena de cabelos anelados, muito dona de si e meio que líder da turma na escola, relata que em casa a mãe e o padrasto gostam de beber e de brigar. O álcool em excesso é o combustível para as agressões verbais e físicas que começam no boteco, na rua e terminam em casa, no quarto. Nesses momentos, é como se as crianças não existissem. Os afazeres do lar e os irmãos mais novos ficam aos cuidados da menina quase todos os dias. Nas brigas mais violentas a menina tem que se trancar com as crianças menores no quarto, “morrendo de medo que as ameaças de ambos cheguem ao seu esconderijo”. 

A violência doméstica de que são vítimas as três meninas, faz delas parceiras de um mesmo infortúnio que o mundo adulto e perverso lhes impõe. Vida simples, de medo e privações, compartilhados nas conversas ou em simples olhares no dia a dia.   Na escola, longe do ambiente doméstico e acreditando estarem protegidas das ameaças de familiares tóxicos, as meninas riem, brincam, sonham até.

Outro dia, quando cheguei na escola, elas já estavam lá, se maquiando diante de um espelho no corredor. Depois, saíram saltitando, ensaiando alguns passos de uma dança alegre e infantil. Uma espécie de ciranda, misturada com amarelinha. Eu aplaudi.