Sílvio Bernardes
Eu caí na besteira de sugerir ao nosso grupo de escritores e poetas da Sociedade dos Poetas Vivos de no próximo encontro – no final do mês desse mês – homenagearmos o Chico Buarque, pela passagem do seu 81º aniversário, dia 19 de junho. Foi uma ideia besta a minha e meus amigos da SPV, generosos e entusiasmados como eu, embarcaram imediatamente nessa irresponsabilidade. Marcamos a data e começamos muito animados. Mas, aí me vem a coisa da irresponsabilidade, da ‘bestage tão besta’. Como assim, falar do Chico Buarque e de sua obra incoercível que vai muito além da música e da poesia? A arte do Chico não cabe num encontro de uma noite de inverno, nem em dois, três, dez… Ainda que esses sejam repletos de muitas narrativas e regados a bons vinhos, água, cerveja, uísque, cafezinho e – vá lá – comes e bebes. Quando eu leio uma tese de doutorado, uma dissertação de mestrado ou uma produção de TCC sobre o Chico Buarque de Hollanda, sinto que estão incompletas, faltando um pedaço. Um pedaço de mim. Ainda hoje, quando ouço o Jamelão cantando o samba-enredo da Mangueira que homenageou o “poeta Buarque e gênio”, penso que foi ontem que isso aconteceu – e eu estava lá, maravilhado, na Sapucaí. O samba e a homenagem aconteceram em fevereiro de 1998 e o Jamelão nem está mais aqui, há muito retornou à pátria espiritual.
Agora estou eu aqui, de madrugada, com essa batata quente nas mãos, depois de algumas noites mal dormidas – mesmo ouvindo as canções do Chico –, pensando como é que vou me sair dessa, como e com o que comparecer num encontro para celebrar o nosso grande mestre. Como será essa minha construção? Logo eu que com o Chico tenho uma proximidade muito intensa – embora ele não saiba disso – desde os tempos de adolescente. Sua arte e suas intervenções políticas fizeram (e fazem) parte de minhas conversações com alguns bons amigos, de minhas aulas de História, Filosofia e Sociologia, de minhas experimentações etílicas lá do passado, dos meus arroubos de juventude madrugada adentro, de minhas criações (chinfrins) no teatro e, hoje, de minhas leituras constantes.
Decidi que para falar de Chico tenho que falar, também, de Tom Jobim, de Nara Leão, de Miúcha, de João Gilberto, de Noel Rosa e de Ismael Silva, de MPB4, de Marieta Severo, de Sílvia, Helena e Luísa, de Frei Beto, de Lula, de Edu Lobo, de Vinícius de Moraes, do poeta João Cabral de Melo Neto – que nem gostava de música –, do professor Sérgio Buarque de Hollanda e de dona Maria Amélia. Impossível dissociar a obra do Chico Buarque da literatura contemporânea brasileira, mas também não podemos separar o poeta do Politheama, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, do Fluminense, das paisagens bonitas (e muito feias também) do Rio de Janeiro, da gente bonita e da gente feia desse país. Chico Buarque é do Brasil e é do mundo todo. Sua arte é paratodos com a música, a literatura, o teatro, o cinema, o futebol, a boa conversa entre amigos, assim como as nossas tertúlias da Sociedade dos Poetas Vivos.
E o nosso encontro dos Poetas Vivos celebrou, também, a vida e a arte do professor e contador de causos Cláudio Bernardes, outro aniversariante do mês de junho. Evoé!







