Sílvio Bernardes
Começou o Congado, que muitos conhecem como Reinado ou Festa do Rosário. É tempo de roupa nova. A gente estreia roupa e até sapatos na festa do Reinado. É um trem danado de bão, como diz o outro. Agosto surgindo – com ele, os ventos e os papagaios –, chega aqui no alto o parque do Loli com um colosso de brinquedos, jogos e até música para se oferecer ao coração enamorado. Assim diz o locutor com sua voz chinfrim – que não é locutor nem aqui nem na China – “esta canção quem oferece é alguém que lhe quer bem e você, menininha do vestido de florzinha, sabe quem” ou “o balanço da canoa é pura emoção… é o balanço do vai-e-vem, de um lado puxa você, do outro o seu bem”.
O Alto do Rosário já está recebendo as barraquinhas para a festa. Barraquinhas feitas de bambu e folhas de piteira, enfeitadas de papel de seda, como os mastros das bandeiras da Santa. O Derli é o primeiro a montar sua barraca, em segundo vem o Zé Rafael e o povo do Querosene. No primeiro dia de novena chega, como quem não quer nada, a Dona Isabel do Picolino, com uma banca vendendo pirulitos puxa-puxa. Pouco depois, é a vez do homem do doce de coco, por nós conhecido como quebra-queixo, digo o doce, não o homem. Depois vêm maçã do amor, a garapa do Calixto e uma porção de outras delícias que o nosso dinheiro não dá conta.
A novena de Nossa Senhora do Rosário, na igreja de baixo, é comandada pela Dona Juversina. Outras mulheres, grisalhas ou jovens, acompanham a reza, como a minha mãe Dona Luzia Zenóbia. Os homens também, mas o maior interesse deles é o depois do terço: os leilões de muitas prendas (bolos enfeitados, frango assado com farofa, latas de doce, garrafas de vinho etc.) e as barraquinhas.
A barraquinha do porquinho-da-índia que alguns insistem em dizer “barraca do coelhinho” – é coordenada pelos irmãos Debique e distribui uma infinidade de prêmios. A meninada participa com muito interesse. Somente depois da novena é que as barraquinhas e o parque funcionam. O zelador da igreja, o Zé Conquista, toca o sino para chamar os fiéis e, depois, para dar início às barraquinhas.
As guardas de Congado evém chegando, timidamente, ensaiando para o grande evento, o 15 de agosto. Nesse dia a alegria é contagiante. O colorido se expande nas guardas de Congo, de Moçambique, dos Marinheiros, do Vilão… Há muitas cores e um brilho diferente no altar da Santa, na igreja de baixo e na igreja de cima. É a festa de Reinado e o povo está contente. Desfilam por essas ruas poeirentas – com altivez, importância e muita fé – grandes mestres do Congado: João Criolinho, Joaquim Procópio, Jésus Benzedor, os irmãos Salomé, Dona Çãozinha, Geraldo Marra, Antônio Tomás, Dona Maria, Dona Virgínia, Wandeir Camargos, João Bigode, Ângelo Guarda-Chaves, Vicente Brandão, Juvenil da Rua da Ponte e tantos outros.
Aqui na Cava, no terreiro do meu humilde barracão, observo, de camarote, o cortejo das guardas que vêm lá da casa dos Basílio: seu João e dona Çãozinha; da casa do sô Jésus Benzedor, do seu Joaquim Salomé. Que maravilha de festa! Que multidão de gente é essa? Eu e meus irmãos estamos de roupa nova e com uma alegria que não cabe dentro do peito. O Reinado é bão demais da conta, sô!
Alguns moços espiam as guardas do Congado, outros espiam as mulheres num outro ambiente ali próximo: um tal de Cantinho do Céu, onde a música é de dançar coladinho com as moças da zona boêmia. O sagrado e o profano caminham lado a lado com muita alegria e devoção. Enquanto vou observando essa grande festa da cultura e da religião de minha terra, alguém me sacode: ei, vamos acordar!







