Que história é essa? No encalço de Hilda Furacão numa Belo Horizonte estonteante

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Sílvio Bernardes

No famoso quarteirão da zona boêmia da Rua Guaicurus, no centro de Belo Horizonte, não nos encontramos e, sequer, encontramos a ambientação descrita por Roberto Drummond no romance “Hilda Furacão”. Não vimos o glamour do Maravilhoso Hotel e do Montanhês Dancing e, claro, não ouvimos a orquestra do Delê animando as noitadas naquele salão de dança. Não vimos o Cintura Fina, nem Maria-Tomba-Homem, nem a beleza da ex-musa do Minas Tênis Clube, a Garota do Maiô Dourado. Mas, juro, senti a presença da Hilda Furacão, do próprio Roberto Drummond e de umas tantas outras pessoas daquela época em que Belo Horizonte cheirava a jasmim e ao gás lacrimogêneo que a polícia jogava nos estudantes.

Estou voltando para casa depois de um passeio pelas ruas e ambientes descritos por Roberto Drummond no seu famoso livro (1991).  No último sábado (23) fomos eu, Márcia  e o casal de amigos Pedro Santos e Janieire, na Caminhada Literária de Hilda Furacão – os lugares descritos pelo romancista em Belo Horizonte –, conduzido pelo também escritor Rafael Sette Câmara. Ainda que tenham passado mais de sessenta anos dos acontecimentos e com as alterações naturais da arquitetura e da vida de seus personagens, pudemos, de verdade, revisitar os ambientes onde pontificaram o trio Roberto, frei Malthus e Aramel – o Belo, Cintura Fina, Maria Tomba-Homem, padre Cyr, Orlando Bonfim, o gordo EMC, Antônio Luciano, Loló Ventura, Gabriela M, Bela B e, claro, Hilda Furacão. O passeio, que começou na praça da Savassi, onde Roberto Drummond é uma estátua de bronze,  nos levou ao Minas Tênis Clube, à praça da Liberdade, ao parque municipal, ao Café Palhares e aos fantasmas do Mocó da Iaiá, do Maravilhoso Hotel e do Montanhês Dancing. Por esses lugares passaram os personagens de Hilda Furacão em inúmeras e instigantes narrativas. E quem é essa tal de Hilda Furacão?

Hilda Gualtieri Von Echveger nasceu nos anos de 1940, em berço esplêndido, filha de mãe italiana e pai alemão. Ainda adolescente fora chamada de a Garota do Maiô Dourado, frequentadora do Minas Tênis Clube, onde foi eleita por diversas vezes a moça mais bonita de Belo Horizonte. Nos bailes, era disputada pelos mais bonitos rapazes, herdeiros de enormes fortunas, que lhe prometiam casamentos vantajosos. Entretanto, preferia dançar com os mais feios e sempre dizia às amigas: “gente feia também tem coração”. Noiva de um daqueles herdeiros, do Rio de Janeiro, no dia do concorrido casamento – 1º de abril de 1959 –, Hilda o abandona na porta da igreja sem nenhuma justificativa aparente. E, num táxi, segue para um único lugar que não havia – ou haveria – qualquer questionamento de sua atitude “intempestiva”: a zona boêmia da rua Guaicurus. Ali instala-se no quarto 304 do Maravilhoso Hotel e começa a sua vida nada fácil de atender – e levar à loucura – os homens que queriam (e querem) moças bonitas “pra namorar”. Ficou cinco anos na zona boêmia – deixou-a no dia 1º de abril de 1964, quando Belo Horizonte e todo o país experimentava os primeiros momentos do golpe militar que impusera ao Brasil uma ditadura que iria durar mais de vinte anos.

Hilda Furacão é um mistério. Se existiu de verdade ou somente na cabeça do romancista Roberto Drummond não fica muito claro, para quem lê o romance ou assista à minissérie da Glória Perez na Rede Globo. E, se é vero tudo isso, por que largou dinheiro e glamour da elite belo-horizontina pela vida de prostituta na Rua Guaicurus? E por que saiu cinco anos depois? Ao final do romance ela dá a dica numa suposta entrevista concedida ao escritor, alguns depois, na Argentina, onde residia:

 – Por que você não diz aos leitores que, tal como contou no seu romance, eu, Hilda Furacão, nunca existi e sou apenas um 1º de abril que você quis passar nos leitores? Por que não diz isso?

Eu, Márcia, Pedro e Janieire – e outros tantos participantes dessa caminhada divertida – vivenciamos um pedaço importante da história de Belo Horizonte numa manhã de sábado e, de certa forma, celebramos a memória do jornalista, romancista e contador de história, Roberto Drummond, que morreu em 2002, em plena Copa do Mundo. Roberto Drummond era atleticano “doente” e jornalista esportivo. Conheci pessoalmente Drummond, quando ele veio a Itaúna atendendo a um convite feito por mim para um projeto denominado “Conversa Mineira” nos anos de 1990  – criado por mim e pelo meu irmão Cláudio Bernardes. Eu, Roberto e David de Carvalho tomamos um porre homérico de cerveja e cachaça – na extinta pizzaria Nova Era – e, por pouco, o convidado não conseguia falar à plateia presente no Teatro Vânia Campos. Mas, isso é uma outra história.

Na ordem:Janieire , Pedro, Silvio e Márcia