Que história é essa? Povo doido da gota serena!

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Sílvio Bernardes

Meu amigo Agostinho Rocha me atiça a memória para recordar de algumas figuras da nossa infância vivida ali pelos lados das ruas Gonçalves da Guia, São Vicente, Harmonia… no bairro Santo Antônio. Ele me fala de um certo Antônio Barbosa, conhecido apenas por Barbosa, que era carregador de malas na rodoviária de Itaúna, na praça da matriz. Sem trocadilhos, era um sujeito boa praça o Barbosa. Era dessas pessoas de alma pura, que acredita em tudo e em todos. E é aí que mora o perigo. Muitos dos moleques zombavam dessa simplicidade do velho carregador de malas e sempre lhe aprontavam alguma maldadezinha. Uma vez, disseram-lhe que o presidente da República, o Juscelino Kubistchek,  viria a Itaúna e, até, visitaria a sua casa, “já que ele era um servidor público dos mais eficientes da terrinha”. O homem não só acreditou como preparou uma bela recepção para o sorridente presidente bossa nova. É claro que o JK não deu as caras – embora fora visto por aqui em companhia de homens e mulheres da alta sociedade. A meninada aproveitou os comes e bebes do festim presidencial, preparado pelo Barbosa, sem dar a mínima para o estado de decepção e desconsolo que tomou conta do velho – e sem culpa alguma, acredito.

Também por aquelas bandas do bairro Santo Antônio viveu um senhor de nome Manoel Messias, cuja alcunha era Mané da Bia. Morava sozinho numa casa pequena à beira da rua – um barraco desprovido de instalação sanitária, como muitos daquela época. Para aliviar as dificuldades da bexiga cheia, o homem criou uma solução simples e eficiente: próximo de sua cama instalou um tubo, que atravessando a parede, alcançava a rua. Era por este tubo que ele tirava a água do joelho nas noites frias e nas madrugadas preguiçosas.  O problema era que aquela torneira de urina poderia atingir algum passante desavisado. Mas, como diz o outro, o Mané da Bia não não esquentava a piolhenta com isso. Dane-se o Mané, digo, o outro.

O Antóim da Vitamina era uma figura de comerciante. No seu comércio ele fazia gostosos coquetéis de fruta que, acompanhados de pastel, era o lanche preferido dos meninos engraxadores de sapato num passado não muito distante. Acontece que o Tóim era muito sistemático. Tinha vez que ele não permitia que nenhum freguês repetisse o pedido. Batia pé e não vendia mais do que achava suficiente, principalmente para aqueles moleques sujos de graxa e tinta.

 – Mais uma, tio!

– Mais uma, o quê?

– Outra vitamina, uai!

– Que vitamina que nada! Tem mais vitamina não.

– Tem sim, eu tô vendo! Dá aí, sô!

– Tem, mas acabô. Não dou nada…

– Vou pagar, sô Antóim, aqui os cobre, ó!

– Não dou, não empresto, não vendo… Tem mais gente pra comprar aqui, ocêis vão acabar com a minha vitamina…

– O quê?

– Outros fregueis. Procês chega. Pode cascá fora!

Trem doido, sô! E se essa coisa pega.

E teve um outro, o seu Juquinha.

– Seu Juquinha, me vê aí uma daquelas deliciosas roscas de Marta Rocha. (para quem não sabe, a rosca de Marta Rocha era um pão doce e com muito doce como recheio). E vou levar também 200 gramas de manteiga.

– O quê, cê vai passar manteiga na rosca de Marta Rocha?

– Sim, tem algum problema?

– Tem, e eu não vendo. Vê lá, sô, cê vai é estragar a minha Marta Rocha!

– ??????

– Seu Juquinha, um coco da Bahia e uma garrafa de cachaça Tatuzinho.

– Ahn! Um coco e uma garrafa de pinga? Não vendo.

– Como não vende, home, tô vendo aí na prateleira.

– Os dois juntos eu num vendo. Ou se leva um ou se leva outro. Os dois não. De jeito nenhum. Não dá embruio.

Gente esquisita.