Sílvio Bernardes
Tenho recebido nesses últimos dias muitas informações sobre as celebrações dos 77 anos da Escola José Gonçalves de Melo – o nosso eterno Grupo Escolar ou “Grupo de Cima”. Meu amigo e colega de tertúlias literárias, Toni Ramos Gonçalves, agora investido, também, na condição de professor de História, foi quem me lembrou dessa efeméride e foi um dos que mais movimentaram a comunidade escolar para as comemorações. Vendo as fotos e assistindo aos vídeos postados nas redes sociais fiquei pensando no meu tempo de estudante do “Grupo de Cima” e, das muitas lembranças que me chegam, uma das mais vivas nas minhas memórias bastante embaralhadas com esse colosso de coisas da modernidade, é a merenda da escola. As comidas especiais do grupo escolar que nos tiravam da sala de aula com a força de cheiros e sabores inesquecíveis.
Tinha pão com salame, pão com molho de carne e quisuco, de groselha ou de morango. Era a Semana da Criança no grupo escolar. Jamais comi um pão com molho ou com salame tão gostoso em toda a minha vida como aqueles da semana da criança. O quisuco era distribuído às crianças pelas cantineiras. Vinha em grandes caldeirões de alumínio e era servido em canecas de plástico coloridas. A gente ficava feliz e de bigodinho vermelho. Eu era o mais entusiasmado.
– Fessora, pode repetir?
– Pergunte à dona da merenda.
– Pode, uai, é proceis mesmo, meus docinhos! (Ceis veio da guerra).
Na semana da criança do grupo escolar, além de comer, a gente participava de um colosso de brincadeiras. Brincadeiras diferentes das do dia a dia. E tinha passeios, excursão, filminho na biblioteca e cinema de verdade, no Cine Rex. Os filmes do cinema destinados às crianças do grupo escolar eram de bang-bang, de cowboy e de índio, com muito tiro, cavalos e poeira das cidades de faroeste. Foi num desses que ouvi pela primeira vez uma música do grande compositor Ennio Morricone. Jamais esqueci. Desde então tornei-me fã, do cinema e da música.
Na semana da criança os estudantes não eram muito cobrados nas lições de Linguagem, de Aritmética, de História do Brasil… Acho que não havia os indesejáveis “para casa” e os castigos eram menos frequentes. Toda criança era anjo. E, na pior das hipóteses, o protótipo do homem do futuro. Ah, lembrei-me do poema “A pátria”, do Olavo Bilac, que líamos e ouvíamos nos dias festivos no grupo escolar:
“Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!”
De primeiro – como diz o outro – havia também outras guloseimas na semana da criança: balas, picolés, pipocas e bolos. Era tudo muito simples, mas de grande significado para aqueles pequenos estudantes.
No grupo escolar havia ainda a Semana da Alimentação, quando o a escola distribuía frutas e vitaminas para as crianças. Nas salas de aula a gente aprendia o valor nutritivo das frutas e a sua importância para o crescimento saudável, a inteligência, a esperteza e dentes sem cáries. E tome banana, maçã, mamão, laranja, pera, uva… Salve a escola primária das nossas primeiras letras! Salve o Grupo Escolar José Gonçalves de Melo!







