Kelly gravou vídeo criticando a demora da perícia que chegou depois de horas
A morte de um jovem de 20 anos em um grave acidente de trânsito, foi marcada não apenas pela tragédia em si, mas pelo sofrimento prolongado da família diante da demora na chegada da perícia da Polícia Civil de Minas Gerais ao local, na avenida Manoel da Custódia. O caso escancara uma realidade recorrente e que muitas famílias vêm denunciando: a demora da perícia em ocorrências com vítima e o impacto dessa demora nas famílias que, além do luto, precisam suportar a espera angustiante para a liberação do corpo.
A vítima conduzia uma motocicleta quando se envolveu em uma colisão, foi arremessada e atingiu um poste. O óbito foi constatado ainda no local. Horas depois, o corpo permanecia na via pública, sem liberação pericial.
Diante da situação, a tia do jovem, gravou um vídeo fazendo um desabafo contundente, que rapidamente repercutiu nas redes sociais.
“Olá, bom dia. Meu nome é Kelly, sou aqui de Itaúna. Hoje, infelizmente, aconteceu uma tragédia. O meu sobrinho, Bruno, morreu numa batida. Sofreu um acidente e acabou falecendo. Está em óbito aqui desde às 7h30 da manhã e até agora não tem uma perícia que possa vir retirar o corpo dele”, afirmou.
Visivelmente abalada, ela classificou o ocorrido como descaso do poder público e denunciou a situação enfrentada pela família. “Isso aqui é uma denúncia de descaso com a população itaunense, com o cidadão itaunense, com a população de Minas Gerais. Será que só existe uma perícia em Minas nessa região? Não, isso não pode acontecer. A família sofre enquanto esse tempo passa, e está errado.”
Kelly também cobrou posicionamento de autoridades municipais e representantes políticos.
“Queremos justiça. Queremos saber o que está acontecendo. Queremos saber o que fazer nessa situação. Prefeito, vereadores, pessoal da Câmara… por favor, acordem para isso. Olhem o cidadão brasileiro que, infelizmente, passa por uma situação dessa.”
O que diz a Polícia Civil
A reportagem entrou em contato com a Polícia Civil, responsável pelos trabalhos periciais e, em nota, o órgão informou que foi acionado para atender a ocorrência e que a perícia oficial foi requisitada.
Segundo a PCMG, os atendimentos seguem critérios de prioridade, levando em consideração a gravidade, a natureza da ocorrência e a disponibilidade de equipes. “A PCMG esclarece que os atendimentos periciais seguem critérios de prioridade, conforme a gravidade e a natureza das ocorrências, além da disponibilidade de equipes na região, podendo haver variação no tempo de resposta em razão da simultaneidade de chamados.”
A instituição afirmou ainda que emprega esforços para garantir a atuação da perícia e que avalia seus fluxos internos para aprimorar o serviço prestado à população.
Jovem foi socorrido, mas morreu no local
O acidente ocorreu na avenida Manoel da Custódia. O Corpo de Bombeiros foi acionado às 6h46 e encontrou o motociclista em estado gravíssimo. Após a colisão inicial com um automóvel, a moto atingiu um poste às margens da via.
O jovem sofreu uma parada cardiorrespiratória. Equipes do Corpo de Bombeiros e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) iniciaram imediatamente os procedimentos de reanimação. Apesar de várias tentativas, o médico da Unidade de Suporte Avançado do Samu confirmou o óbito ainda no local.
A Polícia Militar realizou o controle do tráfego e a preservação da cena do acidente. No entanto, a longa espera pela chegada da perícia transformou o local em um cenário de dor prolongada para familiares, que permaneceram ali por horas, sem respostas e sem amparo.
RETRANCA
Falta de legistas e sucateamento da estrutura de trabalho explicam atrasos, revela policial civil
Em entrevista ao Jornal S’Passo, um policial civil, que preferiu não se identificar, traçou um panorama preocupante sobre a estrutura da perícia em Minas Gerais. Segundo ele, a falta de médicos legistas na Polícia Civil é um problema antigo e amplamente conhecido dentro da corporação.
De acordo com o relato, o estado enfrenta um déficit significativo de profissionais. Em determinados períodos, Minas Gerais contou com menos de 340 médicos legistas em atividade, número muito inferior ao previsto pela instituição, gerando um déficit superior a 20%.
Outro fator apontado é a reposição insuficiente de profissionais. Concursos públicos são esporádicos e não conseguem suprir aposentadorias e desligamentos, resultando em uma força de trabalho envelhecida e cada vez mais reduzida.
“As condições de trabalho também são consideradas precárias. Apenas cerca de 26% dos postos médico-legais no estado possuem estrutura própria adequada. Em muitos municípios, necropsias ainda são realizadas em locais improvisados, como cemitérios e funerárias, o que desestimula profissionais e contribui para o adoecimento da categoria”, revela.
“A sobrecarga de trabalho é constante. Um único legista, muitas vezes, precisa atender diversos municípios, o que torna a carreira pouco atrativa. Soma-se a isso o sucateamento da perícia, com denúncias frequentes sobre falta de materiais básicos e abandono da medicina legal”, completa.
O Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-MG) já notificou diversas vezes a Polícia Civil, cobrando o preenchimento de cargos vagos. Embora concursos recentes tenham sido realizados, como o de 2024, a reposição segue aquém da demanda crescente.
Enquanto o Estado discute prioridades administrativas, famílias como a de Bruno enfrentam a face mais cruel dessa negligência: a dor de perder um ente querido e a humilhação de esperar horas para que o próprio poder público cumpra seu papel.







