DESPEDIDAS A LÉO SOUZA

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Amigos e familiares relembram a trajetória e o legado do multiartista itaunense 

O produtor e ator Leonardo Vinícius de Souza, mais conhecido como Léo Souza, faleceu na madrugada de 10 de agosto, aos 41 anos, deixando um legado artístico e humano que marcou profundamente a cena cultural de Itaúna e região. 

Nascido em 15 de fevereiro de 1984, filho de Pedro Fernandes de Souza e Vilma Batista Lima de Souza, cresceu no bairro Garcias, onde descobriu cedo a paixão pelos palcos. Suas primeiras atuações aconteceram no adro da Igreja de São José, nas encenações da Semana Santa. 

Desde a infância, conviveu com a diabetes, mas nunca deixou que a condição limitasse sua criatividade e empenho. Apaixonado por cultura, dedicou-se à música, ao teatro, à dramaturgia, à direção e à arte-educação, tornando-se mestre em Arte e Direção Teatral pela UFMG. Como professor, formou gerações em escolas públicas, privadas e em sua própria escola de teatro, ministrando oficinas de interpretação e dramaturgia. 

Dirigiu e atuou em inúmeras peças — tanto autorais quanto de grandes dramaturgos —, conquistando prêmios e reconhecimento em várias cidades. Criou a Itinerante Cia de Teatro, encenou obras de Nelson Rodrigues, adaptou clássicos como O Pequeno Príncipe e Brecht, escreveu musicais e dramas, e ainda participou de produções cinematográficas ao lado de cineastas e atores renomados. 

Nas redes sociais, amigos, familiares, alunos e colegas de trabalho se despediram com mensagens emocionadas. O Jornal S’Passo entrevistou algumas dessas pessoas próximas ao multiartista, que traduzem o carinho, a admiração e a saudade que Léo deixa. 

“O menino Léo” 

“Conheço e convivo com o Léo Souza desde criança – quando ele ainda era o ‘Leozinho da Vilma e do Pedrinho’. Muito jovem se matriculou no nosso curso de teatro, na Academia Exercite, mas já vinha de incursões muito competentes nos teatros que se realizavam na sua escola e, principalmente, na igreja de Garcias. Nas nossas aulas, mostrou-se, de cara, um garoto impetuoso, criativo e cheio de energia para a criação, não somente dos palcos, mas dos bastidores: na produção de espetáculos, na iluminação, nos cenários etc. Também era músico, igualmente criativo. 

O Léo rompeu muitas barreiras e influenciou quantos com ele conviveram – seus alunos, especialmente. Como era bonito vê-lo atuar ou falar de Brecht, de Nélson Rodrigues ou de Maria Clara Machado. Como era bonito vê-lo falar de Léo Souza. Gente, o Léo trepava em pernas de pau – nos bons tempos do ‘Corpo & Alma’ – e desenvolvia técnicas circenses como se não tivesse nenhum problema de saúde. Creio que Dioniso o protegia das quedas e das maiores complicações advindas dos excessos. 

Para além do teatro, da música, da produção cultural, Léo Souza era generoso com todos e todas; sempre cercado de amigos. Vivia intensamente a cada momento, mesmo com dores e procedimentos médicos difíceis. No fundo sabia que não teria uma vida longa nesta encarnação. Agora, certamente, alcançará planos espirituais mais elevados e levará sua energia, seu bom humor e sua arte; muito mais leve. Evoé, Léo Souza! Beijos mil e abracimenso!”

Sílvio Bernardes, jornalista, professor e primo de Léo. 

“O grande, o enorme Léo Souza se foi…!” 

“O Homem de Teatro, Ator, Diretor, Arte-Educador e um amigo muito querido foi atuar em outros palcos mais sublimes do que os desse planeta! Fui professor do Léo, mas foi com ele que aprendi sobre teatro na escola. Só trabalhava com artes visuais e alguma coisa de música nas minhas aulas. Aí chega o Léo, um moleque maduro do 9° ano que me propõe fazer apresentações teatrais na escola. Me falou sobre jogos teatrais e improvisação que utilizo até hoje nas minhas aulas. Isso em 1998 na Escola Estadual Zé de Melo. O professor virou discípulo porque encontrou um mestre. Através da sua Arte você se tornou eterno, querido Léo! Vai fazer muita falta…!” 

Levy Vargas, professor e artista plástico. 

“Uma marca forte e impactante”

“Léo Souza foi um provocador, filosoficamente inclinado a temas existencialistas e de forte impacto reflexivo. Foi um artista muito mais interessado na verdade de sua obra do que em projetos comerciais. Deixou, assim, uma marca forte e impactante, intensamente proporcional à sua brevidade e à sua personalidade marcante. Tive a honra de atuar em algumas de suas produções, assim como ser dirigido e até ter escrito para ele. Serei eternamente grato pela amizade que criamos, regada a várias horas de café e debates em torno de temas sociais, existenciais, e do cultivo do nosso apreço em comum por Nelson Rodrigues, Fyodor Dostoiévski, Albert Camus e Belchior.”

Gusthavo Medeia Xavier, gestor empresarial e artista amador. 

“Perdi um amigo e um mentor” 

“Conheci o Léo quando tinha meus vinte e poucos anos e queria experimentar o teatro. Fui com a intenção de subir no palco e acabei descobrindo a escrita. Hoje sou psicólogo, professor e escritor e levo a arte da interpretação para todo o meu fazer profissional. Aprendi que o teatro cria, comunica e cura. Sempre procurava o Léo quando tinha dúvida, precisava de uma opinião ou simplesmente queria ouvi-lo falar sobre teatro. Ele nunca fechou a porta, nunca deixou de estar lá. Fiquei muito triste com a notícia de sua perda. Perdi um amigo e um mentor.”

Jonas Vieira, psicólogo e professor. 

“Seu legado de artista e arte-educador permanece” 

“Léo Souza tinha consciência da fragilidade de sua saúde e, por isso mesmo, sempre teve urgência. O conheci ainda jovem, se apresentando no Teatro Vânia Campos com um grupo de amigos. Das representações na igreja do Garcias aos palcos e ruas de Itaúna e região, Léo sempre foi inquieto e atento. Foi um dos primeiros artistas de Itaúna a se profissionalizar no teatro e formou, no seu entorno, um grupo de apaixonados pela arte.

Na educação, formou uma geração de alunos mais humanos e sensíveis. Apesar da admiração mútua, só nesse ano de 2025 tivemos a oportunidade de trabalharmos juntos na web-série O Dia da Caça, de Guto Aeraphe. Léo era um grande ator e uma pessoa humana incrível. Mesmo nos momentos mais difíceis, ele se ria das suas fragilidades. Vai fazer falta, mas o seu legado de artista e arte-educador permanece. À sua memória, me despeço com uma de suas frases favoritas: beijos 1000, abracimenso!”

Jerry Magalhães, bancário e ator. 

“Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver” 

“No último domingo fomos surpreendidos com a partida precoce e repentina de Léo Souza! Trabalhador da arte, cultura e educação! Mas a vida é feita de ciclos e Léo encerrou o seu aqui. Mas deixou sua família, amigos, alunos, companheiros de vida e luta! Viveu o sonho de transformar seu meio por meio da arte e educação. Ainda estamos emocionados com a partida de Léo! Mas penso que ele, onde estiver, está sereno. Não acredito na morte como fim, mas como uma continuidade melhor do que estamos aqui. Bom… não penso muito nisso. Procuro viver e acho que Léo também pensava assim. Com a arte, trabalhamos com emoções e sentimentos!! Obrigada por me fazer pensar e falar sobre isso! Por isso tem uma frase de um grande pensador da arte e educação que Léo gostava muito. Penso que resume bem o legado de nosso companheiro: ‘Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver’. – Bertolt Brecht.” 

Regina Glória, produtora, atriz e militante da arte, cultura e do social.