Por Heli de Souza Maia
Os versos da canção sertaneja de Moacyr dos Santos e Lourival dos Santos vêm à mente diante de um episódio que chocou o país. A música fala de cavalos fortes, do vínculo entre homem e animal e do respeito que a natureza inspira:
“Eu ferrei o meu cavalo, que tem asas nas canelas.
Chamei o macho na espora, bem por baixo das costelas.
Mas, aqui no meu sertão, meu cavalo é absoluto.
Foi Deus, a natureza, que criou esse produto.”
Mas a realidade que se espalhou pelas redes sociais está distante da poesia. Um homem, identificado como “Boiadeiro”, monta um cavalo exausto. Depois de percorrer mais de quatorze quilômetros, o animal cai, incapaz de continuar, e sofre um ato de crueldade inimaginável.
O vídeo, gravado pelo próprio autor, mostra poças de sangue ao redor do cavalo, que ainda carrega sobre o dorso o peso da indiferença humana. O que começa como uma cavalgada termina em cena de horror, chocando qualquer pessoa sensível à dor alheia.
Em entrevista, o autor do ato disse:
“Não foi uma decisão. Foi um ato de transtorno. Em um momento embriagado, eu peguei e cortei por cortar. Foi um ato cruel. Estava com álcool no corpo. Não é culpa da bebida. É culpa minha. Eu reconheço os meus erros.”
“Cortei por cortar.” A frieza da frase sintetiza a crueldade do gesto, que desafia qualquer justificativa.
O “Boiadeiro” puniu o animal por não continuar a cavalgada e a pena foi além do olho por olho, dente por dente.
E agora? A Justiça também aplicará a pena de Talião? Jamais. Os tempos de Leviatã, da época em que Hobbes afirmava que o homem é o lobo do próprio homem ficou para trás. É a era do devido processo legal, do direito ao contraditório e da ampla defesa, mesmo que tudo esteja devidamente registrado em vídeo.
Do ponto de vista jurídico, o caso configura crime de maus-tratos a animais, previsto na Lei 9.605/98. A pena varia de três meses a um ano de detenção, podendo chegar a um ano e quatro meses se houver morte do animal. A pena não será capital, será branda. No máximo alguns meses.
Mais do que punição, o episódio exige reflexão ética. Animais são seres sencientes: sentem dor, prazer, medo e alegria. Como já questionava o filósofo utilitarista inglês, Jeremy Bentham, do século XVIII, a questão não é se podem raciocinar ou falar, mas se podem sofrer. Mahatma Gandhi reforçava que a grandeza de uma nação se mede pelo modo como trata seus animais.
No sertão, que tantas vezes inspirou versos sobre a liberdade dos cavalos, ecoa agora uma pergunta inquietante: até onde vai a responsabilidade humana? A indiferença e a crueldade têm um preço, e o sofrimento de um ser inocente não pode ser ignorado.
E, ao final, a música sertaneja que celebra a força e a beleza do cavalo parece um lamento silencioso diante da violência: a poesia do sertão confronta a brutalidade, lembrando que respeito e compaixão não são opcionais, mas essenciais.







