A trajetória de João Pedro Gomes Teixeira, 24 anos, é daquelas que começam nas ruas de bairro e ganham o mundo. Nascido e criado no Santanense, ele falou com o Jornal S’Passo diretamente de Huntington Beach, na Califórnia, onde segue construindo sua carreira no futebol universitário norte-americano e se preparando para novos desafios esportivos. Ex-atleta do Souza Moreira — equipe também tradicional do Santanense — João Pedro cresceu dentro de um ambiente em que o futebol era muito mais do que um esporte: era base, formação e, depois se transformou em passaporte para oportunidades internacionais.
O atacante lembra com clareza do início de tudo. Ainda criança, aos seis anos, deu os primeiros toques na bola na escolinha do falecido “Roberto Bicudo”. Foi ali que despertou o gosto pelo esporte e começou a moldar não apenas a técnica, mas também o caráter. Ele conta que o futebol teve papel essencial para sua formação como pessoa. De temperamento explosivo, teve na rotina esportiva um caminho para aprender sobre disciplina, trabalho coletivo e fair play. “O futebol sempre andou entrelaçado com meu crescimento como homem. Quando mais novo eu arrumava muita confusão por causa do meu gênio, mas jogar bola me ajudou a trabalhar isso e entender peso das punições pelos meus atos”, relatou.
No Souza Moreira, equipe em que construiu toda a base, João Pedro se encontrou como atleta. Os treinadores Juninho Mineiro e João Gilberto tiveram impacto direto em sua evolução. Segundo ele, além das técnicas e dos atalhos dentro de campo, os dois foram fundamentais para fortalecer sua perseverança e autoconfiança, orientando também sobre como canalizar sua personalidade forte de maneira positiva dentro do jogo. “Eles me ensinaram a usar minha personalidade do jeito certo, a ser mais confiante e acreditar no meu potencial”, reforça.
A virada de chave veio em agosto de 2024: João Pedro estava em preparação para uma possível oportunidade profissional no Nordeste e jogava, paralelamente, um campeonato em Itaúna pelo time do Santanense. Foi nesse torneio que o destino bateu à porta: um conhecido de seu pai, que o viu atuar, o convidou para aceitar uma proposta nos Estados Unidos como estudante-atleta. A decisão, segundo ele, foi imediata. “Não considero que foi difícil. Naquele momento, a proposta era muito melhor do que insistir em algo que já não estava tão garantido. Não pensei duas vezes antes de focar na preparação para vir”, recorda.
Superação
Chegar aos Estados Unidos exigiu superação. João Pedro admite que a adaptação foi dura, especialmente nos primeiros meses. Diferenças de fuso horário, alimentação, regras locais e — principalmente — o idioma, foram barreiras significativas. Ele reconhece que a base de inglês recebida na escola foi insuficiente e destaca o impacto disso na rotina. “Isso me atrasou um pouco. Acho de suma importância que as escolas preparem melhor os alunos, porque o inglês abre muitas portas, ainda mais na era da comunicação online”, afirmou.
Apesar das dificuldades, o atacante se firmou no futebol universitário e também ganhou espaço na UPSL, uma das ligas de maior crescimento nos EUA, equivalente à quarta divisão nacional. Ele diz que disputar a competição tem sido determinante para sua maturidade esportiva, proporcionando bagagem e ritmo de jogo. Paralelamente, enfrenta os desafios do modelo esportivo americano, em que a exigência física é maior e a comunicação dentro de campo, ainda prejudicada pelo idioma, se torna um obstáculo a mais.
Para a próxima temporada, João Pedro embarca para uma nova etapa: vai disputar a NAIA pela WBU (Williams Baptist University), no estado de Arkansas. A mudança, segundo ele, representa evolução tanto acadêmica quanto esportiva. “A nova universidade é mais estruturada, e a NAIA tem um nível de muita relevância no cenário do futebol universitário. Quero aproveitar essa oportunidade de morar e conhecer outro estado, além de competir em um nível mais alto”, destacou.
A rotina
Mesmo diante do ritmo intenso de treinos e jogos, ele considera a rotina nos EUA mais organizada do que no Brasil. As universidades estruturam os horários de seus atletas para garantir equilíbrio entre aulas e esportes, o que facilita o desempenho em ambos. “Aqui, a rotina é pensada para não sobrecarregar o atleta. No Brasil, ou você estuda ou joga. Aqui consigo fazer os dois”, explica.
O sonho, no entanto, vai além do ambiente universitário. João Pedro mira o mais alto nível possível no futebol, espera se formar nos Estados Unidos e, no futuro, viver exclusivamente como jogador profissional. Para isso, mantém disciplina, foco e a consciência de que cada oportunidade pode transformar seu destino — como já aconteceu antes.
Ao final da conversa, ele deixou um recado aos jovens atletas de Itaúna e, especialmente, do bairro Santanense e dos projetos sociais e escolinhas do Souza Moreira, que desejam seguir seus passos. A mensagem é direta e cheia de experiência: não desanimar, nunca subestimar quem está observando e, principalmente, não abandonar os estudos. “Uma oportunidade pode surgir do nada, como aconteceu comigo. Eu achava que só o futebol me levaria a algum lugar, mas senti muita falta do inglês e quase perdi minha chance aqui porque fui reprovado uma vez na escola. Então, sem dúvida, é preciso se dedicar aos estudos”, aconselha.







