Em uma semana decisiva para o futuro da Coteminas, Itaúna está de volta ao centro das atenções. O plano de recuperação judicial do grupo, que será novamente avaliado pelos credores nos próximos dias, abre a possibilidade de alienação de imóveis na cidade — incluindo, pela primeira vez de forma concreta, a tradicional Fábrica de Tecidos Santanense, patrimônio histórico e econômico de Itaúna há mais de um século.
A informação confirma rumores que circulam há meses no setor têxtil e na própria região, sobretudo após dificuldades financeiras enfrentadas pela Coteminas e suas coligadas. O documento entregue à Justiça cita expressamente Itaúna entre os municípios onde imóveis poderão ser vendidos para compor o caixa necessário à reestruturação do grupo.
A eventual alienação da planta industrial, caso se concretize, representa um marco para a economia local. E diferentemente do informado em 2023, a Santanense, permanece sob controle da Coteminas — e não da Shein, como chegou a ser especulado. As duas empresas mantêm apenas uma parceria comercial e financeira firmada em abril de 2023, que envolve a produção nacional de peças de vestuário e um empréstimo de aproximadamente US$ 20 milhões, cerca de R$ 100 milhões à época, feito pela companhia asiática ao grupo brasileiro. A colaboração tem foco na modernização da cadeia produtiva de jeans, brim e malhas de algodão e na ampliação da manufatura brasileira voltada à Shein, mas não implica transferência de controle acionário.
A situação financeira da Coteminas, agravada pela crise do setor e por dívidas acumuladas, levou o grupo a pedir recuperação judicial em maio de 2024. Desde então, assembleias de credores vêm sendo adiadas, em razão da dificuldade de consenso sobre as propostas apresentadas. Uma nova reunião está marcada para este final de semana, e o desfecho é considerado decisivo. Em Florianópolis e Blumenau — onde está uma das maiores operações industriais do grupo — há expectativa de que as unidades catarinenses sejam preservadas. O plano, inclusive, não menciona Blumenau, sinalizando que a fábrica deve ter papel estratégico na fase de reestruturação.
Enquanto isso, o documento entregue pela empresa detalha uma ampla reorganização financeira. A Coteminas busca reestruturar um passivo que ultrapassa R$ 2 bilhões por meio da criação de fundos regulados, alienação de ativos e novos mecanismos de governança diretamente controlados pelos credores. O plano prevê a constituição de dois Fundos de Investimento em Direitos Creditórios — um para credores com garantias reais e outro para credores quirografários — além de um Fundo de Investimento Imobiliário, que receberá imóveis vinculados às dívidas. Os cotistas desses fundos terão direito de voto proporcional à participação que detêm e poderão aprovar demonstrações financeiras, mudanças de regulamento, substituição de administradores e decisões sobre a liquidação das estruturas.
O modelo também estabelece uma rígida estrutura de transparência, com comunicação constante aos credores, acesso integral às informações patrimoniais e possibilidade de fiscalização individual. As cotas poderão ser transferidas apenas a investidores profissionais que aceitem integralmente o regulamento e as condições do plano.
Paralelamente à apresentação da proposta, a Justiça autorizou operações de venda de ativos estratégicos para gerar liquidez imediata. Entre elas, a dação em pagamento de um direito aquisitivo sobre imóvel em Vinhedo (SP) ao Banco Fibra, a venda de ações da A11L Tecnologia para a Stefanini Participações e a autorização para alienação da marca MMartan em processo competitivo. Todas as operações foram validadas pela administração judicial e pelo Ministério Público, com base em laudos técnicos.
Os credores terão diferentes modalidades de pagamento, dependendo da natureza da dívida. Trabalhistas receberão à vista até cinco salários-mínimos ou, acima disso, em até 36 parcelas. Credores quirografários, ou seja, não têm garantia real (como hipoteca ou penhor) nem privilégios de preferência, poderão receber até R$ 7 mil em pagamento único, optar por parcelamento de longo prazo ou converter integralmente o valor em cotas de fundo. Credores garantidos deverão migrar seus créditos para as cotas do FIDC destinado a esse grupo, com posterior estruturação no FII.
O plano ainda prevê a utilização do mecanismo de credit bid, permitindo que credores usem seus próprios créditos reconhecidos para adquirir imóveis pertencentes às Unidades Produtivas Isoladas, o que inclui possíveis ativos em Itaúna caso venham a ser colocados em venda competitiva.
A Assembleia Geral de Credores está marcada para este final de semana. Se aprovada, a estrutura permitirá a continuidade da reestruturação e a liquidação gradual dos fundos ao longo dos anos. Caso seja rejeitada, o cenário mais temido — a falência — volta a ser uma possibilidade concreta para um dos maiores grupos têxteis do país.
Enquanto isso, Itaúna observa com atenção os desdobramentos. A eventual venda de imóveis e da própria Santanense representaria uma mudança profunda no mapa industrial do município, que cresceu ao redor da indústria. O futuro da cidade, assim como o do grupo, será fortemente impactado pelas decisões tomadas nos próximos dias.







