De Itaúna para o Globo de Ouro, Laura Lufési integra elenco de filme “O Agente secreto”

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Natural de Itaúna, a atriz Laura Lufési viveu um momento histórico na carreira ao integrar o elenco de O Agente Secreto, produção brasileira que conquistou dois prêmios no Globo de Ouro 2026: Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Drama, com Wagner Moura. O reconhecimento internacional projeta o cinema nacional e destaca a trajetória da itaunense, que estreia em longas-metragens justamente em uma das obras mais celebradas do audiovisual brasileiro nos últimos anos. 

Formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, Laura construiu sua formação artística de forma paralela à vida acadêmica. A relação com o teatro começou ainda em Itaúna, no ambiente escolar, e foi se aprofundando com cursos técnicos e experiências práticas. “Eu fiz teatro na escola, era minha aula favorita”, relembra. Mais tarde, já em Belo Horizonte, passou pelo Cefart e, posteriormente, pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, onde consolidou sua formação como atriz. 

Radicada atualmente em São Paulo, Laura integra uma geração de artistas que transita entre o teatro, o audiovisual independente e as séries, construindo a carreira de forma gradual. A chegada ao cinema em um projeto de grande repercussão internacional foi resultado de um processo seletivo que começou de forma simples, mas decisiva.

Em entrevista ao Jornal S’Passo, a atriz contou que o convite surgiu por meio de uma plataforma de cadastro de atores. “O diretor de elenco Gabriel Domingues me convidou para um teste. Ele não conhecia meu trabalho ainda, mas viu meu perfil e me chamou. Enviei uma selftape e depois fiz um teste presencial com Kleber, Emilie, Leo Lacca e Gabriel. Dias depois recebi o convite para fazer parte do filme”, relatou. 

A participação em O Agente Secreto marcou sua estreia em longas-metragens e também um desafio pessoal. Segundo Laura, o maior obstáculo inicial foi lidar com a própria insegurança. “Não me boicotar e achar que eu não merecia estar ali. Isso acontece muito com quem vem de onde eu vim”, afirmou. Ela destaca que o acolhimento da equipe foi fundamental para superar esse sentimento. “A postura de todos, desde a direção até a equipe, me deu base pra transpor esse medo.” 

No filme dirigido por Kleber Mendonça Filho, Laura interpreta uma pesquisadora responsável por investigar arquivos ligados ao passado de Marcel, personagem vivido por Wagner Moura. A atuação tem papel central em uma narrativa que aborda memória, apagamentos históricos e os silêncios deixados pela ditadura militar no Brasil. Para a atriz, o trabalho com Kleber foi decisivo para sua experiência no set. “Ele é realmente diferenciado. Além de gostar de trocar com os atores, sabe bem o que quer e o que não quer. Mas também abre espaço pra gente colocar o que é nosso”, destacou. “Eu poderia ter ficado nervosa, mas ele tem uma sensibilidade e uma confiança que me deixaram à vontade.” 

Contracenar com Wagner Moura foi outro momento marcante da trajetória. Admiradora do ator desde a infância, Laura conta que precisou transformar essa referência em parceria profissional. “Sempre fui fã de Wagner artisticamente e politicamente. Estar ao lado dele foi muito emocionante, sonhei muito com isso”, revelou. No entanto, ela explica que precisou controlar a emoção para que a troca em cena fosse verdadeira. “No set, precisei enxergá-lo como parceiro de trabalho, senão a troca não aconteceria. Essa foi a base para controlar a emoção.” 

A experiência no filme também deixou lições que Laura pretende levar para os próximos trabalhos. “Entendi que as melhores cenas acontecem sem esforço ou planejamento interno, quando estamos presentes para ser atravessados pelas situações”, refletiu. Segundo ela, o aprendizado de olhar mais para o outro do que para si mesma foi essencial durante o processo. “Aprendi também que tornar sobre o outro é mais bonito do que tornar sobre si, isso quem me ensinou foi Leo Lacca.” 

Apesar da projeção nacional e internacional, a atriz mantém forte ligação com suas origens. Laura faz questão de destacar os professores e espaços de formação que marcaram sua infância e adolescência em Itaúna, além da influência cultural da família. “Sou a primeira artista da família a viver disso como profissão, mas sempre saúdo meu avô, que promoveu por décadas a Folia de Reis no distrito de Azurita, em Mateus Leme, mesmo enfrentando o racismo religioso”, contou. “Para mim, ele foi o primeiro artista da família.” 

Com O Agente Secreto exibido em festivais internacionais e consagrado no Globo de Ouro, Laura Lufési passa a integrar um grupo seleto de artistas brasileiros reconhecidos fora do país. Sem romper com as próprias raízes, a atriz leva a história de Itaúna e do interior de Minas para o centro do cinema mundial, reafirmando que grandes trajetórias também nascem longe dos holofotes.