Vereador denuncia possível “compra de votos e troca de favores” para eleger atual presidente da Câmara

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Áudio gravado de ligação telefônica entre vereadores revela contradição de Toinzinho em depoimento à “CPI da comunicação”

A imagem da Câmara nunca esteve tão arranhada e, para quem achava que iria demorar muito para estourar outro escândalo, se enganou. O vereador Wenderson da Usina formalizou essa semana uma representação ao Ministério Público contra o presidente do Legislativo, Antônio de Miranda, apontando indícios de improbidade administrativa, desvio de finalidade e uso indevido da estrutura pública. O documento foi encaminhado à promotora Andrea Clemente Barbosa e sustenta que a versão apresentada pelo presidente durante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Comunicação pode ter sido desmentida pela gravação de ligação ocorrida entre Toinzinho e Wenderson, mas revelado apenas essa semana.
A denúncia resgata que o caso teve origem em dezembro de 2025, quando surgiram suspeitas sobre a nomeação para o cargo de chefe de comunicação da Câmara. A situação levou à abertura de uma investigação preliminar no Ministério Público e à criação de uma CPI para apurar possíveis irregularidades. Durante os trabalhos da comissão, Toinzinho afirmou não ter realizado a nomeação por indicação política do colega Kaio Honório, em troca de garantir o voto do parlamentar para se eleger presidente da Câmara. No entanto, segundo Wenderson, novos elementos desmontam essa narrativa e revelam a condução contraditória dos fatos.
Na gravação, Toinzinho admite ter atendido a um pedido do vereador Kaio Honório, justamente o parlamentar que presidiu a CPI responsável por investigar o caso. Para Wenderson, a situação expõe não apenas uma possível contradição, mas também um cenário de conflito de interesses que compromete a credibilidade da investigação legislativa.
Nos trechos apresentados, o presidente faz declarações diretas sobre a nomeação: “Aquele negócio que eu fiz da resolução aí, eu não vou fazer mais, isso realmente foi contra o meu posicionamento anterior, assumo isso.”
Em outro momento, afirma: “se você pegar todos os meus cargos e avaliar lá a capacidade, só o da comunicação que nós invertemos, por causa dessa demanda imediata com o Kaio, o resto meu tá certo.”
A fala segue com uma admissão ainda mais explícita: “Só esse da comunicação foi um erro pontual que eu estou assumindo pra você, viu Wenderson…” e “O Kaio chegou e me perguntou dessa oportunidade, eu não pensei duas vezes.” Em outro trecho, ele reforça: “essa agora eu tô assumindo que atendi o Kaio… eu poderia realmente ter ouvido vocês.” 
Para o autor da denúncia, essas declarações chocam com o depoimento prestado na CPI, onde o presidente negou qualquer indicação política na nomeação. Na representação, Wenderson destaca que “a divergência entre as versões possui impacto direto na análise da motivação do ato administrativo”, sugerindo que a justificativa apresentada publicamente pode não refletir a real intenção da decisão.
Outro ponto sensível levantado é a alteração da Resolução nº 40/2021, que reduziu a exigência de escolaridade para o cargo de chefe de comunicação. Antes, era necessário nível superior. Para o vereador, a mudança, embora formalmente possível, levanta suspeitas quando analisada dentro do contexto em que foi feita. “A eventual edição de ato normativo com a finalidade de viabilizar situação individual previamente delineada constitui hipótese que, em tese, pode caracterizar desvio de finalidade”, afirma no documento.

Uso da máquina para fins políticos

A representação também aponta indícios de que a estrutura de comunicação da Câmara teria sido utilizada para fins políticos, incluindo a possível divulgação de conteúdos com viés direcionado contra vereadores não alinhados à base do presidente. Segundo o texto, há sinais de que o agente nomeado poderia estar atuando além das funções institucionais, com monitoramento de redes sociais e produção de conteúdo com potencial caráter político-partidário durante o expediente.
Além da denúncia formal, Wenderson e o colega Guilherme Rocha ampliaram a pressão política ao divulgar, em suas redes sociais, trechos da oitiva de Toinzinho na CPI e partes da gravação telefônica. A exposição pública do material aumentou a repercussão do caso e levou o debate para além do plenário, colocando o presidente da Câmara sob questionamento direto da opinião pública.
No pedido encaminhado ao Ministério Público, Wenderson solicita a instauração de procedimento investigatório, a apuração da real finalidade da nomeação, a verificação de possível desvio de finalidade e abuso de poder, além da análise do uso da máquina pública e da eventual violação aos princípios da administração pública, como impessoalidade e moralidade. Também pede a investigação sobre a condução da CPI, especialmente quanto à imparcialidade, e a oitiva dos envolvidos, além da preservação de documentos e conteúdos digitais da Câmara.

Bastidores políticos

Nos bastidores, o movimento também é interpretado como parte de uma articulação política mais ampla. Informações apuradas indicam que Wenderson e Guilherme Rocha trabalham na construção de uma chapa para disputar a mesa diretora da Câmara no próximo biênio, além de articularem um grupo político com discurso de renovação visando às próximas eleições municipais, com uma chapa “puro sangue” para o executivo. A estratégia incluiria o desgaste de figuras tradicionais da política local, com o argumento de necessidade de mudança.
Até o momento, o presidente da Câmara, Antônio de Miranda Silva, não se manifestou publicamente sobre o conteúdo da denúncia, nem sobre os áudios divulgados.